sexta-feira, 8 de maio de 2009

Premissas e elucubrações (1)

Tem algumas premissas básicas no latão aqui que tentei pôr antes aqui no blog mas não conseguia fazer uma síntese melhor organizada, então largo deste jeito mesmo:

1 - Não dá pra negar a influência dos heróis espaciais da Marvel (que eu lia nos oitentões) na concepção de meu personagem, especialmente o Surfista Prateado do John Buscema e o Senhor das Estrelas do Byrne (dá-lhe, oitentões!), e principalmente o ROM, o cavaleiro do espaço. Na época, achei que seria interessante colocar uma inteligência artifical DO BEM no lugar de um cavaleiro de armadura como o Homem de Ferro e o próprio Rom... alguém que busca a humanidade mesmo não tendo origem humana.
Nunca contei o Visão como cem por cento artificial por causa daquele lance das ondas cerebrais do falecido Simon William, e muito menos o Tocha Humana original de 1939, por ter aparência humana demais, e fui influenciado pelos livros do Asimov e o velho seriado do Jornada nas Estrelas: nos livros, as máquinas eram um reflexo da humanidade com seus defeitos e suas virtudes, no seriado, eram criações que acabavam se voltando contra seus criadores.
E nos quadrinhos adultos, na época da Animal, tinha o RanXeroX, um bruto violento e bárbaro dentro de uma estrutura de máquina, mas igualzinho os punks... e eu quis um herói máquina justamente para fugir disto, o quadrinho comercial de herói renegando o quadrinho autoral, justamente para homenagear o primeiro pela oposição!
O fato do visual dele remeter ao vilão Besouro, inimigo do Homem de Ferro, foi realmente inconsciente... estava tentando com meus parcos recursos mentais à época recriar a impressão que tive com aquela cena antológica do Exterminador do Futuro, onde ele emerge sem o disfarce humano após a explosão de um caminhão tanque. E naquela cópia escura dos cinemas dos oitentões, aquele robô ameaçador me parecia um robô preto, daí eu pintar de preto o Alma de Aço, ele tinha que começar uma ameaça para então aparecer como herói.

2 - Como puderam notar, desde aqueles primórdios, adoro ironias e contrastes, e felizmente agora encontro-me dotado de discernimento e ferramental técnico mais apropriado para fazê-los em meu personagem de maneira bacana e decente! O senso de ironia acentua e dá força às ideias principais dos roteiros, realça a mensagem, e diverte o leitor mais exigente e perspicaz.

3 - Eu sempre tive fixação por aquelas antigas revistas preto-e-branco A Espada Selvagem de Conan, por que, mesmo dentro de um personagem que tem uma cronologia narrativa, com evolução de situações, reencontro de personagens do passado e de histórias anteriores, NÃO TINHA A BENDITA DA ARMADILHA DA NOVELA SERIADA em que se tornaram os gibis de super-heróis de agora: eram NORMALMENTE histórias com começo, meio e fim NA PRÓPRIA REVISTA. E defini que, dentro da medida do possível, TODAS AS HISTÓRIAS DO ALMA DE AÇO deveriam ter começo-meio-e-fim no próprio episódio! E evitaria ao máximo possível sagas de mais de cinco episódios para ser resolvida (é, eu mesmo não consegui evitar e elaborei uma história em cinco partes com uma aventura muito legal do latão).
Mais uma vez é a coisa da ironia: eu quero ir contra uma estrutura comercialmente bem-sucedida de gibi de linha, de super-herói, mas que eu acho UMA AFRONTA AO LEITOR ENQUANTO CONSUMIDOR DE ENTRETENIMENTO e ao direito dele comprar POR GOSTAR, NÃO POR SER OBRIGADO A ACOMPANHAR O DESENROLAR DA NOVELA E FICAR SE MARTIRIZANDO QUERENDO SABER O FINAL!!!

4 - Atualmente, na revisão do personagem, estou constatando simbologias presentes nos conceitos e nas histórias muito bacanas, que não tinham ocorrido na época mas que estão claras como cristal:

O Alma de Aço é o ápice da tecnologia humana, tanto em armamento altamente sofisticado quanto pelo fato de ser uma inteligência artifical sagaz e bastante equipada para a sobrevivência e para a ação... só que é uma porra de um bárbaro, só sabe oferecer soluções militares do tipo mais trogodita, do tipo extermínio total do desafeto, mesmo o cérebro artificial dele dizendo que nesta ou naquela situação o negócio mesmo é sentar e negociar...
Porra, o cara é UM BÁRBARO, UM TROGLODITA disfarçado de equipamento de última geração... vai ver que é por isso que tem visual de cavaleiro de armadura medieval, parece um transformer fuscão preto ou um besouro halterofilista (eu só desenhei ele parrudo pra parecer um super-herói... pelo visto, vou manter esse visual bem desengonçado e antiquado justamente para realçar o aspecto de solução ignorante para um problema)

Prefiro mantê-lo, em essência, um herói, aquele que procura fazer o que é o certo e o justo... só que agora estou carregando a mão nas falhas de caráter e no revanchismo deste meu personagem... definitivamente os programadores da personalidade dele tinham sérios problemas emocionais...
Um herói que mete os pés pelas mãos, que acaba ou entrando em dilemas morais sobre o certo e o errado, ou pior, em que ambos os lados de uma situação TEM RAZÃO e estão certos (alguém lembrou de Palestina e Israel?). E quando ele tem que se opor a outros que ESTES SIM SÃO HERÓIS LUTANDO PELO QUE É CERTO e tiveram apenas a infelicidade de topar no caminho dele do lado oposto?

Cara, eu adoro essa dicotomia... esse lance de amoralidade mesmo em busca da moral que tanto tinha nas histórias do Conan, o Bárbaro... e que eu vi aprimorada e atualizada através de um quadrinhista japonês absurdamente talentoso e elaborador, Yukito Kishiro, autor de Gunnm - Hyper Future Vision / Last Order (igualmente conhecido como Battle Angel Alita) e de Acqua World.

É a ironia a serviço de aumentar o interesse do leitor no meu trabalho quadrinhístico e trabalhando em prol de aumentar a diversão de quem ler!

7 comentários :

  1. Fernando,eu acho que mesmo com os detalhes que falou,vc deveria repensar seu personagem, com um design apropriado pros novos tempos,pq no conceito,tá massa!Bem original,pelo que entendi...seria bom um release resumido,pra gente sacar melhor ele.Faz isso!
    Tb acho que fazer sagas,criando uma cronologia confusa depois,só mata o personagem.HQ tem que ser descompromissada,como eram as do Almanaque Marvel e Almanaque Premiere Marvel,da antiga RGE.Revistas na linha das que o Tony Fernandes fez na Phenix Editorial,idos de 90,eram melhor!Pro bolso do brasileiro,eu acho que um almanaque de 100 páginas,miolo p&B e capa colorida funciona mais e economiza o bolso do editor.Basta escolher um material lúdico e descompromissado,que divirta e seja escapismo pros leitores.Ujma revista assim,acho que daria pra fazer a 3 ou 5 reais cada na banca.
    Desde que surgiram a linha Premium,da Abril,só fez perder leitores,pq os preços encareceram pelo alto custo da revista.Cada Premium eram 10 reais,véio...
    Hoje em dia,as historias são uma bosta e não dá pra acompanhar,por conta da cronologia mal amarrada.
    Bom mesmo era Alan Moore,que fazia HQs de Miracleman e Capitão Bretanha e em 10 0u 12 páginas,dava seu recado.O leitor se sentia satisfeito.
    Acho que é este formato que o autor brasileiro deve usar.

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  2. a quem diga que James Cameron misturou Dias de um Futuro Esquecido e Deathlock pra compor o Terminator, que alias depois daquele desastre do terceiro filme, fizeram um série legal.
    o Byrne copiou o Terminator na versão dele do Metallo.
    ainda não li Robocop vs Terminator, mas parece que o Alex Murphy é usado para o surgimento da Skynet.
    Aoki já assistiu Projeto Zeta? é mais um exemplo de robô sem aparência humana.
    falando em robôs também tem o anime Kikaider do Shotaro Ishinomori (criador do Kamen Rider), que usa os conceitos de Pinocchio presentes também em Astroboy e Metrópolis (o anime).

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  3. Metallo do Byrne:
    http://en.wikipedia.org/wiki/File:Metallo.jpg

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  4. Carlos Henrique, a idéia de ter um release para apresentação do personagem para ser desovado a cada episódio e mesmo a título de divulgação em blogs, posts e no site definitivo e oficial da publicação, com certeza é válido e faz parte de minhas preocupações. E como nós conversamos antes, o Alma de Aço está merecendo sim um acerto no visual, ainda que eu pretenda fazê-lo dentro de uma premissa de um personagem que parou no tempo em relação ao universo onde ele frequenta... pelo menos, o universo dito "civilizado", de seres e lugares ou tecnologicamente iguais ou superiores ao estágio tecnológico dele mesmo.

    As revistas européias de quadrinhos tem esse lance de serem coletâneas com uma quantidade "X" de páginas por série, podendo desde encaixar um episódio curto ou um pedaço de uma obra maior. Foi assim com o Incal, era assim com as histórias de álbuns de Asterix (quando o Goscinny ainda tava vivo), e muitas das coisas que conhecemos apenas via álbum fechado DEPOIS de ter sido publicado por inteiro nesses periódicos mensais. Daí os autores que escrevem para essas publicações terem desenvolvido a técnica de narrativa que fecha da melhor maneira possível cada arco de situação em seis, oito, dez ou doze páginas. Enquanto o japonês faz aquela novela semanal em cerca de vinte páginas e precisa enrolar pra caralho, e o americano dos comics monta os arquinhos em vinte e três, vinte e quatro páginas.

    O editorial conduz o autor a um determinado esquema de paginação... e o brasileiro, fica no formato de poucas páginas por questão de tentar encaixes em fanzines... MAS POR BENDITA INFLUÊNCIA DOS MANGÁS E COMICS, NÃO CONSEGUE FAZER ARCOS DE SITUAÇÕES FECHAREM DENTRO DESSAS POUCAS PÁGINAS, PIOR, NEM FECHAR UM EPISÓDIO PRA NÃO DAR "TO BE CONTINUED", é uma mistureba de experiências e influências que deixa o brasileiro sem saber lidar direito com a coisa... e estou apanhando que nem charuto em boca de bêbado pra fechar o episódio-piloto dentro de uma edição de vinte e oito páginas (pobres comerciais, cadê o espaço pro anunciante? alguém tem que ajudar a pagar as contas de uma versão impressa... hehehe!)

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  5. Quiof, sobre o Cameron, é para você ver como uma boa história serve de inspiração e influencia a outras histórias igualmente boas... mesmo que neste caso esteja sendo apenas um boato, uma lenda criada no sentido de reverenciar ainda mais algo já naturalmente bom (como já discutimos isso sobre o seriado Smallville e a influência aparente e inegável da reinterpretação do John Byrne para o Superman, no distante 1986). Obviamente o Metallo do Byrne é sim visual e indiscutivelmente inspirado no Terminator, sim... mídias diferentes inspirando criadores de mundo diferentes, mas homenageando-se uns aos outros, ainda que muitas vezes, isso se confunda com plágio ou com falta de inspiração.



    Sobre o Projeto Zeta, vi alguns episódios, sim, mas o robô com o disfarce holográfico que tem como companheira e cicerone no mundo humano a menina (adolescente?), me pareceu seguro demais de si, tenho só que tomar cuidado para os dilemas do meu brutamontes enlatado, quando recair nos mesmos tipos de dilemas e situações semelhantes aos episódios do desenho, saia com soluções que só ele mesmo poderia ter, nada de imitar aos outros... ainda que em muitas situações um brutucu Conan hightech vá agir igual qualquer outro superman da vida... em caso de dúvida, senta o braço!

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  6. Sobre o problema do Pinnocchio, prefiro pensar no Alma de Aço não tanto em termos de uma criatura inocente cujo caráter será moldado após ele cair em tentação e ganhar nariz de mentiroso, orelhas e rabo de burro... belas figuras de linguagem, e grande Collodi.

    O puto tá mais pro mito judaico do Golem, homem feito pelo homem, embora tenha muita influência daquele filme do Kenneth Brannagh com o monstro de Frankenstein antológico do Robert de Niro... influência inegável no traçado EMO de personalidade de meu querido Alma de Aço. Todavia, o robô tem também traços fortes do conto de Rip Van Winkle, personagem que passa os anos da Independência Americana dormindo e quando acorda encontra um mundo totalmente modificado...

    Tem aí um elemento muito autobiográfico, de depois de tantos anos de geladeira eu estar dando a cara para bater e ressuscitando um personagem com a cara e o pique dos anos oitenta, mas cuja mensagem e recado tem eco e pode repercutir favoravelmente nos anos 2009/2010... a coincidência/influência com/de o capitão américa dos anos sessenta, que acorda num mundo diferente da 2ª guerra mundial, acabou ficando mais evidente...

    Estou tendendo bastante a concordar com o Carlos Henry no tocante à revisão visual do personagem, pois uma coisa é ser original, outra coisa é fazer uma vestimenta em sintonia com o Zeitgeist da percepção das pessoas de hoje do que elas entendem por fantasias futuristas e alienígenas, e outra coisa é persistir no MAL-FEITO como atributo de originalidade...

    O capacete tá foda, eu gosto dele como "rosto" do homem de lata, ele tem esse lance de brincar de espelho escuro e plano, essa coisa do robô ter "visão de antolhos", cavalo de corrida que NÃO OLHA para os lados e só enxerga para a frente, bem focado, mas míope para o que se passa ao seu redor... e as ombreiras triplas horrorosas que todo mundo critica acentuam o efeito de atrapalhar tanto movimentos dele quanto bloquear a visão periférica do meu personagem...

    Pombas, que análise froidiana do caramba, mania que querer dar justificativas psicológicas para defender a persistência num negócio meio falido só pra não ter que ter trabalho com revisões necessárias, além do maldito medo de descaracterizar o meu personagem e deixá-lo COMUM DEMAIS, CERTINHO DEMAIS, para alguém que pretende representar um suposto passado de glória que na verdade FOI sem NUNCA TER SIDO!

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  7. sem falar no Cable, totalmente copiado do Terminator, os erros da anatomia vieram do Arnold

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Elogio ou crítica? nunca censuro nada, mas... não ABUSE! hehehe