sábado, 19 de junho de 2010

FANFIC



“Um sujeito sempre teve problemas ao longo de toda a vida com figuras de autoridade: pais, patrões, polícia, e o ápice desse seu desajuste se dá quando ele choca de frente com o líder da seita religiosa à qual ele pertencia - praticamente sua última oportunidade de se enquadrar num sistema social em que há uma clara hierarquia, onde ele acataria seu papel de seguidor, devoto e subalterno, sem discussão nem contrariedades.

Os motivos pelos quais ele perdeu a crença na autoridade-mor do culto foram tão... lugar-comum, banais (o líder aproveitava de sua posição para obter favores materiais e carnais, explorando seus seguidores, igualzinho tantas histórias, fofocas que chegam a fazer parte do folclore e do imaginário popular, do senso comum das pessoas em geral independente de pertencerem ou não àquela seita - ainda que falem apenas dos seguidores dos OUTROS CULTOS, "imagina se vai ter essa sem-vergonhice aqui na nossa igreja"), tão clichetescos que nosso protagonista acabou perdendo de vez a crença EM TODOS OS VALORES ESPIRITUAIS daquele culto, mesmo o mérito destes acabou sendo perdido em virtude dos descalabros e desmandos encontrados.

Tendo então chegado a um ponto de perda TOTAL de referenciais espirituais, familiares, e dogmáticos, a um ponto em que ele abre mão de tudo, nosso herói tem uma epifania e enxerga a si mesmo uma liberdade de agir e pensar por si mesmo que nunca havia alcançado em toda a sua existência (embora possa simplesmente parecer que ele enlouquecera de vez e se alienara para o mundo real).




“Nosso protagonista descobre-se num estado de consciência em que praticamente nenhuma opinião contrária às suas convicções pessoais, seja de familiares, de amigos, não são capazes de afetá-lo pelo efeito de chantagem emocional como antigamente, e para as quais normalmente acabava fazendo concessões e ações totalmente a contragosto só para cessar as chantagens - e que normalmente repercutia de maneira subconsciente em doenças de fundo nervoso, dores de cabeça sem razão física aparente, tiques, pesadelos e noites mal-dormidas.

Todo esse quadro somático desaparecera, era página virada de sua vida. E ele se sentia mais leve, até mesmo... feliz!

Mas o vazio espiritual, o fundo do poço a que chegara, ainda não cessara! Era necessário caminhar para o alto, sair do atoleiro... Limpar o caminho foi necessário, mas agora ficou cicatrizes espirituais, era necessário fazer as pazes com seu antigo eu, que se fechara para poder se proteger das opressões e traições, e que se vira sem as paredes de sua prisão particular, prisão esta que no fundo no fundo tinha a missão de protegê-lo da compreensão real do mundo, que na fantasia de seu imaginário anterior, carregava um conhecimento que seria de um sofrimento insuportável e que iria destruí-lo.

E o conhecimento se fez, a expectativa de um sofrimento insuportável não se concretizou... e agora? Pra onde o herói irá? o que deve fazer?

Perdoar a si mesmo, reconciliar seu eu atual com seu passado, seria um excelente começo... Mais fácil falar do que fazer?

Que tipo de ação prática porém altamente carregada de significado e simbólica poderia ser feita?”




“A ARTE!!!!

A arte é catártica, é libertária!
É simbólica, não está presa a propósitos de objetividade, de metas de sobrevivência, subsistência, ganho material, nem nada! Nenhum propósito objetivo, além de servir a si mesma!!!!

Exatamente o mesmo estado de espírito em que se encontra o nosso herói agora! Livre das amarras, da subserviência ao mundo! Livre para apregoar que não há bem ou dom maior do que atingir a liberdade! Livre ao ponto de desejar que esta liberdade tão pessoal e individual dele mesmo possa ser estendida a todos, a todas as pessoas, mesmo aquelas que o prejudicaram no passado, mesmo aquelas que o manipularam para seus próprios fins. Perdoar ao próximo, de conceito clichetesco de seitas de fundamentação judaico-cristã, passou a ser uma verdade espiritual sincera para ele.

E ele vai se perdoar através da arte da escrita, do conto! Do texto! Da ficção, a ficção que conduz os leitores a entrarem em lugares que dificilmente alcançariam por si sós por mais que esforçassem suas próprias imaginações, a vivenciarem situações, torcerem por personagens, a se identificarem... a ansiarem em saber qual o destino daquela situação, as consequências daquela decisão deste ou daquele herói do romance, do conto... ou quiçá mesmo do poema, haja visto os precursores como Camões, Thomas Mallory ou Homero, que não se furtavam a narrar eventos e criar suspenses usando de versos.

Seu romance é todo calcado em cima de simbolismos, versando sobre renascimentos, descobertas individuais mescladas à conceitos coletivos, embebidos em desvarios, em figuras de absurdos que só fazem sentido em sua imaginação alucinada-sem-alucinógenos (a pior delas!!!), numa trama que insiste em dois conceitos continuamente presentes: Liberdade acima de tudo, e perdoar é extremamente necessário e igualmente libertário!

Ele publica seu livro, os familiares não compreendem, os amigos de outrora mal e mal leem, não sacam a proposta.

Ele está feliz, reconciliou-se consigo mesmo!
E isso é tudo o que importa!”

FIM