sexta-feira, 16 de março de 2012

A morte, a torcida e o José Roberto Pereira

“Há três coisas que nunca voltam atrás: a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida” Provérbio Chinês

Definitivamente fiquei absurdamente afetado pela morte de meu amigo José Roberto Pereira. Normalmente eu já empurro com a barriga e fico adiando os posts, as atualizações, e mesmo respostas em rede social, como formspring e facebook.

Dessa vez, demorei muito mais que um mês para me manifestar. Não dá para negar, foi cagaço puro, sempre tinha um compromisso de fim-de-semana, esticadas no serviço (justificadas, pelo menos), mas nada de proferir alguma declaração pública acerca da morte de alguém que, a despeito do distanciamento dos últimos tempos, eu considerava meu amigo, e certamente foi uma personagem que muito influenciou meu pensamento acerca da produção de quadrinho (embora não tenha sido suficiente para me fazer sair de meu comodismo covarde de ausência total de produção própria).

Eu não posso me furtar a dizer que me considerava amigo dele. E certamente tinha admiração pela determinação dele em viabilizar suas produções ficcionais, visando futuramente viver efetivamente disso. E até mais importante que isso, acompanhar a evolução de seu trabalho escrito.

A situação que mais me vem à cabeça acerca da morte do BK é aquela historinha do Luis Fernando Veríssimo, em que um treinador de academia tem um grupo de amigos da faixa dos trinta que praticamente o seguem em seu discurso e prática sobre hábitos saudáveis (“Cigarro?! MATA! Fritura?! MATA! Cervejinha?! MATA!”). E um belo dia, ao chegarem na academia, encontram o chocante anúncio que o treinador morreu do coração. E a primeira coisa que fazem, desnorteados, é ir a um bar, pedir chope e batatas.

Eu me senti e sinto assim com relação à morte do Zé: uma das coisas com que eu mais me identificava em seu discurso contra as religiões institucionalizadas essa a desobrigatoriedade de seguir preceitos instituídos pelos homens, e se valer do raciocínio para perceber que, se há um ente pensante responsável pela criação e pelo funcionamento das coisas no mundo, tal deus não precisaria de intermediários para se conectar aos homens.

Igualmente, eu me regozijava com os escárnios e desafios tanto às autoridades religiosas quanto ao conceito de castigo divino, ou macumbaria mesmo. Aliás, era desconcertante ser próximo de uma pessoa que atraía tanto desagrado, tanta reprovação, tanta negatividade por parte das outras pessoas. Garanto que muitos dos que se aproximaram (e até se tornaram amigos do Zé Roberto) só ficaram do lado dele muito mais pelo desafio da rebeldia de se pôr contra a ordem vigente e o “status quo”, em bom português, para marcar posição, do que por efetivamente concordar com a sua opinião sobre algum assunto de interesse.

Posso afirmar isso com consciência tranquila, por que EU comecei assim. Ainda que meu discurso inicial tenha sido “Porra, não é que esse fdp tá certo? Não é que esse corno está dizendo uma verdade?”. E mesmo depois de tanto tempo, de tanto aprender que não é bem daquele jeito, ainda há muita coisa desse discurso do BK que concordo também?

O que efetivamente me paralisou, me “quebrou as pernas”, foi essa sensação irracional e absurda de que, mesmo a morte do Zé sendo de uma causa inevitável como um câncer de pâncreas que nunca havia sido detectado até ser tarde demais, eu considero como uma espécie de vitória das forças do mal, ou mais precisamente, a canalização de toda aquela energia negativa da coletividade que não podia ouvir falar do JRP que já queria que ele se fodesse. E havia o contraste, anteriormente, ele desafiava os macumbeiros meio que na base do “a macumba não funciona, ou só me fortalece”. Em suma, a sensação é de que o BK acabou sendo carmicamente punido pelo seu comportamento de “troll”.

E eu fico bastante entristecido, pois, apesar dele ter conseguido passar um grande recado com o livro do Mil Nomes, ele não conseguiu terminar o que eu pessoalmente considero o trabalho mais significativo da vida dele, ou pelo menos, o acerto de contas com os personagens mais antigos do Zé, outrora Elementais, agora simplesmente Pedro, Morganna a Executora, Princesa e a Kyoko.

Nem quero entrar no mérito da perda dele para junto de sua família. Pelo discurso dos podcasts após o problema cardíaco que ele teve alguns anos atrás, ele demonstrava estar muito mais preparado para morrer que qualquer um dos nossos conhecidos em comum, sem contar eu mesmo. Mas bate uma sensação de incompletitude, de expectativa frustrada, do que jamais vai poder ser finalizado porque mesmo que outros assumam a tarefa de completar e publicar o livro inacabado, não será a mesma coisa, o mesmo ponto de vista, as mesmas decisões de escolha de palavras.

O José Roberto era único. E dava um duro desgraçado para transpor sua individualidade em suas ficções, criar seus mundos imaginários e habitá-los com suas regras próprias, ainda que derrapando no fluxo narrativo ou, por suas críticas ácidas e “troladoras” às obras alheias, ganhou inúmeros opositores e detratores, que logo trataram de esmiuçar as referências e coincidências, acusando-o de plágio, de chupinhar esta ou aquela situação. Pode até ser verdade, mas, havia... HÁ algo no caos descritivo e inventivo das histórias do BK que É único, SÓ ELE poderia ter escrito aquilo. Se seus textos seriam apreciados por mais pessoas além dos poucos que admiravam sua obra, dificilmente saberei.

O que resta de lições de vida, eu descrevo duas: uma diretamente dele, e outra, a título de contraexemplo.

  1. Enquanto criador, seja determinado a deixar sua marca no mundo, seu testemunho pessoal de seu tempo. E lute por esse objetivo com todas as forças à sua disposição.
  2. Talvez não valha a pena se indispor com a coletividade para impor a sua razão. Por mais forte que um homem seja internamente, espiritualmente falando, a energia negativa dessa quantidade de desafetos que cresce dia após dia acaba te comendo pelas beiradas, e um dia a sorte desse homem forte acaba.