segunda-feira, 1 de setembro de 2014

O resgate das memórias e perdas que ninguém parece se importar...

“A Prisioneira D’Alma (Sérgio Molina e Lílian Jacoto, interpretado pela banda Canastra)

Cada detalhe me comove
Me mexe, eu deixo me envolver
E de tal modo que eu fico louco
E loucomovo o mundo eu levo
Cada detalhe...

Eu tenho as mãos atadas com carinho
Eu venho e me emociono aos pouquinhos
Eu sinto a sombra, a morte é branca
Eu sinto o frio, a morte é neve

And never more tive um amor”

(http://www.molamusical.com.br/discografia.php)


“Quando Ismália Enlouqueceu (Sérgio Molina e Lílian Jacoto, interpretado pela banda Canastra)

Ao longe, o mastro de um navio
Percorre o mar, até o céu.
Vai longe e busca o nunca mais,
vai longe e busca o nunca mais.

O breu da bruma esconde a quem?
Que olhos têm a escuridão que encobre a torre de marfim?
Que ouvido sonha o canto atroz?
Que lábios sentem o fado meu?
Qual olho espreita a nau veloz?
Que mágoa tece o fardo seu?

Dispersa, a noite se perdeu,
sonhando à nau acompanhar,
porém, girando em solidão
pergunta a esmo sem cessar:

Aonde o tempo em mim, se esconde?
Aonde, aonde?

Aonde o tempo em mim, se esconde?
Aonde, aonde?

Quem dera fosse uma fragata
que navegasse além da morte
e quem me visse, visse um ponto
o centro, o norte do horizonte

Aonde o tempo em mim, se esconde?

Aonde, aonde?

Aonde o tempo em mim, se esconde?
Aonde, aonde?

Que morte sou e desconheço
De quem o brilho que disperso
E faço náufrago de mim
E faço náufrago de mim

No mar, à tona surge a lua,
E envolve a nau até o céu.
Na torre, Ismália pende a voz
E em dissonantes tons,
Menstrua.”


A grande diferença entre essas duas músicas é que a primeira recebeu um registro, foi gravada no único CD da banda, por volta de 1992 ou 1994 (memória falhando aqui). Ambas são melodias lindas, com arranjo instrumental fantástico e interpretação impecável. Ambas dignas de perpetuação de alguma forma, transcendendo a lembrança de quem teve oportunidade de apreciá-las e ouvi-las. A segunda só sobrevive na memória daqueles que a compuseram e a interpretaram, eu mesmo só pude resgatar a letra da “Ismália” de memória, e chutando as partes que não lembrava mesmo em palavras que pareceram formar uma trama coerente.

Eu cometi umas barbaridades que me fizeram extraviar as minhas gravações em fita cassete dessa música, ou seja, eu mesmo perdi meus próprios registros da mesma, e retomando contato com seus autores e intérpretes, não há planos nem interesse de regravar tal música, fizeram uma tentativa de reaproveitar alguns trechos numa nova música, Orfeu, mas confesso que, apesar de manter a beleza, fica uma sensação de “falta algo”, de que aquela música não faz justiça à original. Deve ser uma questão de lembrança afetiva, não obrigatoriamente associada ao objeto em si, mas às circunstâncias, como na fábula do rei e do cozinheiro (texto atribuído a Walter Benjamim).

Eu só tenho boas lembranças dessa música, e o pensamento recorrente de que, a despeito do desfecho melancólico do esquecimento e da existência vã, pois ela partiu para o mesmo canto das doces recordações da infância (muito longínqua, no meu caso), em que podíamos soltar as crianças na vizinhança, elas se reuniam com seus amigos e brincavam pela rua, sem maiores preocupações, mesmo um carro ou outro passando não consistia em grande ameaça. Situações boas de tempos antigos que não têm mais contexto nem vez nos dias atuais.

Eu posso especular o que é uma pessoa ter criado, ou participado da criação, de uma obra artística que afetou positivamente as pessoas, trouxe beleza, alegria, ou desconcerto para elas. Que toca a alma de alguém. Acredito piamente que essa sensação de ter produzido um legado positivo ao mundo ajuda a dormir melhor à noite. Eu sinto isso quando penso em algumas das pessoas que ajudei em situações-chave de suas vidas, como as que ajudei a finalizar seus trabalhos de formatura da faculdade, ou uma ou outro autor de histórias a quem pude dar uma dica útil.


Como de hábito, eu sempre busco amarrar minha exposição inicial com o assunto recorrente deste blog, minha própria produção de quadrinhos. O tempo passa, um monte de tecladas ruminando coisas interessantes e até mesmo dignas de virarem quadrinhos, e não sai disso. Nenhum desenho. As dúvidas sobre a validade e a qualidade das sinopses, das iniciativas, pedindo e implorando por aceitação de outros que não eu mesmo, essa mendicância por atenção, literalmente pendurando uma melancia no meu próprio pescoço.

O essencial fica de fora, o desejo de perpetuação de espécie, de legado, convertido numa vontade de fazer histórias que persistam na memória dos leitores, do mesmo jeito que diversas histórias (diversas delas consideradas ainda hoje “antológicas”) persistem em minha memória até hoje. Meus amigos músicos fizeram um trabalho primoroso com suas músicas, e mesmo assim… poucas pessoas delas se lembram, bem menos pessoas que puderam assistir aos shows, testemunhá-las ao vivo, apreciá-las… e amá-las, como eu!

Confesso não apreciar a perspectiva de destino igual para minhas obras ficcionais, mas aí lembro-me da própria trajetória desses meus amigos músicos, até hoje se dividindo entre ganhar a vida e realizar sua arte. E lembro-me da maravilha, do encantamento proporcionado pelas músicas, lembro-me de sua capacidade de encantar não apenas a mim, como também a outras pessoas. Lembro-me da ausência de arrependimento de quem comprava o ingresso e teve a sorte de ouvi-los. Lembro-me de artistas do calibre do Itamar Assumpção, tão marginalizado e penando tanto para realizar sua música a ponto de cogitar em largar tudo para se tornar frentista de posto de gasolina, até que ser convidado para fazer shows na Europa, principalmente na Alemanha, e finalmente ter sido reconhecido em vida antes de morrer.

Lembro do meu falecido amigo Zé Roberto Pereira, insistindo em sua arte literária, seus escritos de pegada pop porém enfoque único, da sua iniciativa em escrever textos para “deixar a alma do leitor de pau duro”, como ele vivia dizendo que este seria o melhor critério para a autoavaliação honesta que um autor pode exercer sobre sua própria ficção: o teste da leitura, se o que você bolou na intenção e na vontade realmente se materializou, na cristalização proporcionada pela narrativa escrita/desenhada, em algo que transcenda a mera inspiração e orgulho de criador, mas que seja tão memorável, tão inspirador quanto as histórias antológicas conseguem, te deixem a alma de pau duro! Histórias com as quais as pessoas, por menos pessoas que sejam, se importem!

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Deus está nos detalhes... e o diabo, também!

Elegias

A melhor coisa de você ter uma audiência composta apenas por pouquíssimas pessoas é que você tem a liberdade de postar qualquer besteira apenas para manter o hábito da escrita e afugentar os demônios da imaginária e doentia falta de inspiração (o outro nome da preguiça).

Queria antes escrever histórias que impressionem, que gravem pelo fogo da inspiração sua trajetória na lembrança dos leitores, que acabem virando comentários casuais em rodinhas de amigos reunidos, que virem sátiras e trollagens em posts de facebook, que emocionem as pessoas até que o boca-a-boca as espalhem para muito além do gueto e do nicho.
Quero pegar situações do cotidiano, vivências reais ou medos reais das pessoas, dramas passíveis de comoção, identificação, interesse por quem gosta de acompanhar a vida alheia, ou mesmo gosta de um entretenimento baseado em obras ficcionais. E tenho particular apreço por fugir da “estética” do cronista, e reinventar tudo, simbolizar e metaforizar, o que gosto de chamar de “realidade reinventada”.

Já me alertaram sobre o risco real de expor fatos de minha vida pessoal nessas metáforas, por mais bem mascaradas através de um gênero ficcional tão descompromissado e leve como quadrinhos de aventuras de temática super-heroística, mas acredito piamente ser um risco que vale a pena correr, independente da minha competência como narrador, como contador de histórias, como reinventor de realidades.

O insight, aquele instante divino em que o autor tem total ciência e certeza do que deve transpor para o papel... (e estou tendo de transferir teclando as anotações de meu celular para o computador por ele não ter o recurso de copiar-e-colar, são só recordatórios mesmo!)
A bem da verdade, essa tal inspiração divina está diretamente associada à consolidação de todo um esforço diário e cotidiano de escrita, de labor, os tais 99% de transpiração tão famosos atribuídos à frase de Albert Einstein! E está correto, tão verdadeiro quanto afirmações de sensatez que afirmam que a sorte só aparece mesmo àqueles que já vinham se preparando desde sempre. Oportunidade é quando o acaso coroa seus esforços, e não vejo razão para abrir mão desta crença.

No último post, havia assumido um compromisso com meus leitores de detalhar e descrever a tal da história que era um exercício de destravamento e acabou virando outro monstro, mas senti que é muito pior deixar meu blog parado e inativo sem nenhuma atualização, daí esta postagem no puro improviso, sem a linha de raciocínio de introdução-tese-conclusão que tanto aprecio em meus próprios textos (uma vez dissertador, sempre dissertador!). Aos que realmente aguardavam atualizações, me desculparei apropriadamente nos próximos posts.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Indo longe demais na retomada...

A tarefa deveria ser simples. Atender a demanda, isso bastava.

Uma tarefa simples e banal, sem complicação, de entrega simples. Apenas meia hora do meu tempo, nada sofisticado, elaborado. Apenas a retomada após uma devastadora e prolongada hibernação, sob os auspícios da procrastinação permanente.

Era uma premissa interessante: se eu me sentia bloqueado em função da grandiosidade e da quantidade de elaboração que apliquei na reconcepção de meus personagens e de minha série, e se era o vulto e a premisumível trabalheira que vislumbrei para materializá-los que me fazia travar e partir para uma procrastinação permanente, então eu deveria me exercitar com coisas muito menores e menos intimidadoras.

Seria como um simples exercício descompromissado, como aqueles treinos copiando desenhos de anatomia só para melhorar a técnica: não é para fazer e sair por aí mostrando, é desenferrujar músculos. Praticamente como um ex-praticante de atividades físicas que resolve retomar os exercícios, e sob recomendação médica, começa com atividades leves, no limite de peso suficiente para fazê-lo se sentir ativo novamente, mas sem chegar a forçá-lo, a confrontá-lo com limites físicos que poderiam machucá-lo e inviabilizar sua capacidade de se exercitar novamente no futuro.

Foi uma grande ironia eu mesmo ter sugerido no último post deste blog que, se uma pessoa não soubesse muito sobre a arte de quadrinhizar situações, então que tomasse algo beeem descompromissado e insípido/inodoro (do ponto de vista afetivo e emocional), como um vídeo divertido do youtube, para transcrever as cenas paradas do vídeo, escolhendo as mais marcantes e a partir da recriação da trama como uma fotonovela (ou desenho a partir dos fotogramas), aprendesse noções sobre quadrinhização que poderia usar em sua própria história.

Mal percebia eu que, com todo o encaminhar de minha trajetória profissional desvinculada dos quadrinhos para a direção de projeto e programação visual (e recentemente, criação de conteúdo a partir de vantagens e benefícios de produtos), eu mesmo deveria exercitar minha retomada da forma que recomendei aos iniciantes: tomando como inspiração um material descompromissado e (principalmente!) emocionalmente indiferente. Eu não posso me tratar como o ex-praticante de esportes que resolve retomar carreira. Eu sou o cara que ficou anos acamado, com o corpo definhando, que um dia se vê em condições de sair da cama, mas para fazer coisas bem simples, como sentar, se levantar e dar alguns passos, tem que aprender tudo do zero, tem que reaprender tudo. Não se trata simplesmente de recondicionar o corpo: Fisioterapia é a palavra correta!!! E do tipo reaprender a andar mesmo!

Certo, e por que não houve esse exercício de retomar atividade com algo bem simples, como as anteriormente citadas fotogrametrização (ou fotonovelização) de vídeos curtos de youtube, os irônicos ou os engraçados? Tudo totalmente desvinculado emocionalmente, sem o menor risco de adiamentos por razões emocionais, aliado à proposição de, sendo um exercício de desenferrujamento, jamais seria necessário mostrá-los a quem quer que seja?

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… A ideia idiota! Pretensiosa, um exercício de prepotência no final das contas!

Parecia ser tranquilo, sem maiores dificuldades, e uma retomada digna de um suposto legado no meu imaginário no qual eu me imaginava como um grande talento do quadrinho nacional que, a pretexto de falta de perspectivas profissionais (que acobertaram as verdadeiras razões de acovardamento puro) se afastara do meio e que agora iria retornar e deixar a todos de bocas abertas com a alta qualidade de seu trabalho, de sua ficção. O legítimo representante da velha anedota de “A volta dos que não foram”, tão utilizada em piadas dos fins dos anos oitenta e que na verdade nunca soube qual era o sentido dessa anedota em si, mas apenas vim vivenciando desde que abri este meu blog numa tentativa de reconciliação com meu passado renegado e abortado de criador de narrativas.

O paradoxo de sempre condenar os autores que, a despeito de suas limitações, expunham à luz, ao conhecimento público, suas artes, suas histórias, condenados por mim pela flacidez de ideias, independente do quão elaborados ou até mesmo bonitos tenham ficado seus desenhos. Condenei-os por praticarem ficções que me doíam ao intelecto e eu mesmo via meus próprios devaneios crescerem como boas narrativas, convincentes, comoventes, mas que aprisionadas em forma de pensamentos sem sequer se fazerem presentes na forma de rascunhos, nunca eram postas à prova da leitura de outros como os quadrinhos deles estavam sendo. E essa inveja me consumia, e eu a disfarçava com um discurso, com desenhos velhos feitos por um jovem mal saído da adolescência que era um arremedo de recortes, microplágios e fanfics retirados de várias obras diferentes, mas de costura tão pífia e tão incipiente que só com muita boa vontade você perdoa, e apenas se levar em conta a idade e inexperiência da pessoa à época, no agora longíquo ano de 1986.

Se, se, e se. Condicionais. E especulações mentais, autossabotagens, procrastinações, fuga para atividades prazerosas como joguinhos de computador (e agora de celular), qualquer dispersão para evitar sentar numa cadeira e sair rascunhando, rabiscando, ou mesmo num processador de texto para desfiar anotações e observações úteis em construção de situações, tramas, dramas e personagens. No entando, o maldito do discurso estava lá.

O discurso de “eu mereço mais do que simplesmente desenferrujar minha prática com um mero exercício de quadrinhizar um vídeozinho engraçado, daquele tipo vídeo-cassetada ou ‘porta-dos-fundos’”. E o que, na minha visão deturpada e prepotente até além da tolerância, seria um exercício básico e sem maiores dificuldades, face à paralisia que vinha (e venho) demonstrando em realizar as historinhas do homem-de-lata com alma-de-poeta (tá mais pra “pateta”, que nem o criador dele, sim, cabe direitinho o velho clichê do protagonista ser um espelho do autor, definitivamente fugir à obviedade foge à minha capacidade, só me sobraram a inventividade em rimas porcas). Explicando o citado exercício: consistia fazer um trabalho mais leve e menos emocionalmente conectado comigo, uma trama curta onde eu especulava com personagens secundários do universo do Alma de Aço, num momento do futuro após o encerramento da série principal. Praticamente um fanfic, só que com personagens de minha própria lavra. O raciocínio parecia interessante: sendo personagens secundários, e estando temporalmente desconectados da série, ou seja, o que fizessem naquele momento não iria influenciar o destino da saga (aquela praga!).

Era para ser uma brincadeira descompromissada, inconsequente, para destravar mesmo. Deveria ser curto, poucas páginas, oito, dez, doze. Não deveria ser algo digno para ser mostrado a quem quer que fosse, embora, a título de terapia, eu devesse me impor alguma espécie de entrega para checar os progressos (não logrei fazê-lo).

Ao invés disso, eu criei uma pequena trilogia sobre monstros criados pela ciência humana (apesar de se passar num universo alien, os protagonistas envolvidos são humanóides o bastante para eu considerá-los humanos), questionando a si mesmos, ao seu propósito de existência (dando continuidade às questões fundamentais do seriado do Alma de Aço, só que sendo uma espécie de desdobramento), contrapondo-se à forma como os seres humanos de geração e criação biológica (não dá pra chamar de espontânea, tirando a arte e a caganeira, nada do que o ser humano faz é espontâneo, tudo é pensado e planejado, proposital enfim, o que ocorre são imprevistos na execução!). E ganhei mais um bloqueio criativo, o exercício de destravamento ganhou asas maiores do que o esperado e agora é mais um backlog para me cobrar a dívida de sangue… quero dizer, a dívida em existência, em nascer e sair dos recônditos seguros da minha mente para o mundo hostil da crítica alheia!

(fim do episódio - “owari”)

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Transformando situações da vida em quadrinhos (1)

Pergunta lançada numa comunidade de quadrinhistas do orkut.
Estranhamente, depois da minha postagem, ninguém comentou nada, mas como a sugestão está valendo até para eu mesmo, postei aqui no blog para angariar comentários...

Preciso de alguém que saiba escrever uma HQ

Gente,Quero fazer uma revista em quadrinhos da minha história com meu noivo, já escrevi toda a histórioa(eu narrando), mas não sei fazer textos para revista em quadrinhos.... Preciso transformar esse texto narrado em texto para histórias em quadrinhos.Alguém sabe fazer isso?
Citar Fernando Aoki o Slang - 28 de ago

Autobiografias são engraçadas... e você optou por fazê-la em História em Quadrinhos, muito bem.

Parece uma coisa de finalidade bem pessoal e particular, curtição e partilha de uma situação comum.

Fato muito provável (me mandem para aquele lugar caso eu esteja errado): os eventos que levaram vocês dois a se reunirem MUITO PROVAVELMENTE são mais interessantes do ponto de vista AFETIVO de vocês dois, SÃO PARTE IMPORTANTE DA SUA PRÓPRIA HISTÓRIA, do que seria uma situação inusitada, daquelas divertidas de acompanhar na novela ou nos quadrinhos, o que provavelmente está dificultando a transformação daqueles eventos em uma situação quadrinhizada.

Recomendação a título de treino: peguem uma filmagem caseira, uma cena de vídeo de casamento de conhecido de vocês, ou mesmo um vídeo de situação cômica (ou videocassetada) do youtube. Assistam. Escolham os trechos mais interessantes, os diálogos mais chamativos. Transformem as cenas congeladas em quadros desenhados, na sequência escolhida, não precisa estar perfeitos os desenhos, é treino de quadrinhização, rascunho mesmo. O importante é transformar aquele monte de cena adaptada de um vídeo numa historinha curta com começo, meio e fim. E percebam durante o fazer da coisa (era para ser surpresa, mas prefiro avisar antes) que, se sua história não tiver um FIM com cara de FIM, ou seja, a sequência de cenas não conseguir “caminhar” na direção da cena final, do desfecho daquela situação, então é o caso de voltar atrás e TROCAR os quadrinhos que NÃO ESTÃO FUNCIONANDO para contar a história.

Percebam que o fato de vocês NÃO ESTAREM ENVOLVIDOS emocionalmente com a historinha que querem contar nesses exercícios te deixam totalmente livres para refazer a quadrinhização tantas e quantas vezes quiserem, e jogar fora as cenas que não funcionam sem dó nem piedade. E o treino, como todos sabem, levam à perfeição. O desapego ao objeto com que vocês estão mexendo torna a tarefa como se fosse aquelas lições de escola chatas da qual você vai, faz e se vê livre, ou aquela tarefa do seu trabalho do dia-a-dia, você vai, faz, resolve a tarefa, passa para a próxima, sem drama. É um trabalho! Como outro qualquer.

Botou emoção na parada, aí você TRAVA!!!! Vocês querem mesmo fazer sua lembrança particular com quadrinhos? Bem, então vocês em algum momento terão de sair do estágio de perguntar por aí “como é que eu faço? me ensina aí!” para pôr efetivamente mão na massa. No caso, quatro mãos. Dois olhos, quatro ouvidos, duas bocas, dois cérebros, dois pontos de vista trocando idéias entre si. Muito melhor do que muita gente quadrinhista começa, fechadinho numa conchinha, lendo gibi após gibi E SÓ GIBI, e começa a quadrinhizar para si mesmo do mesmo jeito que nós começamos a escrever quando nos ensinam: COPIANDO O EXEMPLO “DA LOUSA”.

A outra maneira, como devem ter percebido, e que eu NESTE CASO NÃO RECOMENDO, é buscar ler biografias em quadrinhos para tentar MODELAR a história pessoal de vocês dois naquela estrutura JÁ PRONTA de quadrinhização, mas, sem entender o processo de como passar de uma redação escrita para um sistema sequenciado de cenas representando a evolução de uma situação combinando ações de personagens em meio a trocas de diálogos, legendas explicativas e exposição de pensamentos, fica igualzinho aquele pessoal que copia um ideograma japonês ou chinês, ou aquele enfeite decorado com textos em escrita judaica ou árabe: é até bonito de olhar, mas se perguntar o que é aquilo, fica sem sentido.

E adaptar vivência sua a uma sequência pré-pronta, como se pudesse seguir o molde, DIFICILMENTE FUNCIONA. Mas, sei lá, a história é de vocês. E antecipo: tem muita autobiografia XAROPE que não dá a menor vontade de ler. E sinceridade, se algum dia vocês desejarem partilhar essa história sua com mais pessoas de seu convívio familiar, seria legal se ela não fosse RUIM de ler.

Antes de mais nada, uma história em quadrinhos serve para CONTAR uma história, só difere a mídia, o jeito de se contar. O que se pretende contar é o que dá substância para as histórias.

sexta-feira, 16 de março de 2012

A morte, a torcida e o José Roberto Pereira

“Há três coisas que nunca voltam atrás: a flecha lançada, a palavra pronunciada e a oportunidade perdida” Provérbio Chinês

Definitivamente fiquei absurdamente afetado pela morte de meu amigo José Roberto Pereira. Normalmente eu já empurro com a barriga e fico adiando os posts, as atualizações, e mesmo respostas em rede social, como formspring e facebook.

Dessa vez, demorei muito mais que um mês para me manifestar. Não dá para negar, foi cagaço puro, sempre tinha um compromisso de fim-de-semana, esticadas no serviço (justificadas, pelo menos), mas nada de proferir alguma declaração pública acerca da morte de alguém que, a despeito do distanciamento dos últimos tempos, eu considerava meu amigo, e certamente foi uma personagem que muito influenciou meu pensamento acerca da produção de quadrinho (embora não tenha sido suficiente para me fazer sair de meu comodismo covarde de ausência total de produção própria).

Eu não posso me furtar a dizer que me considerava amigo dele. E certamente tinha admiração pela determinação dele em viabilizar suas produções ficcionais, visando futuramente viver efetivamente disso. E até mais importante que isso, acompanhar a evolução de seu trabalho escrito.

A situação que mais me vem à cabeça acerca da morte do BK é aquela historinha do Luis Fernando Veríssimo, em que um treinador de academia tem um grupo de amigos da faixa dos trinta que praticamente o seguem em seu discurso e prática sobre hábitos saudáveis (“Cigarro?! MATA! Fritura?! MATA! Cervejinha?! MATA!”). E um belo dia, ao chegarem na academia, encontram o chocante anúncio que o treinador morreu do coração. E a primeira coisa que fazem, desnorteados, é ir a um bar, pedir chope e batatas.

Eu me senti e sinto assim com relação à morte do Zé: uma das coisas com que eu mais me identificava em seu discurso contra as religiões institucionalizadas essa a desobrigatoriedade de seguir preceitos instituídos pelos homens, e se valer do raciocínio para perceber que, se há um ente pensante responsável pela criação e pelo funcionamento das coisas no mundo, tal deus não precisaria de intermediários para se conectar aos homens.

Igualmente, eu me regozijava com os escárnios e desafios tanto às autoridades religiosas quanto ao conceito de castigo divino, ou macumbaria mesmo. Aliás, era desconcertante ser próximo de uma pessoa que atraía tanto desagrado, tanta reprovação, tanta negatividade por parte das outras pessoas. Garanto que muitos dos que se aproximaram (e até se tornaram amigos do Zé Roberto) só ficaram do lado dele muito mais pelo desafio da rebeldia de se pôr contra a ordem vigente e o “status quo”, em bom português, para marcar posição, do que por efetivamente concordar com a sua opinião sobre algum assunto de interesse.

Posso afirmar isso com consciência tranquila, por que EU comecei assim. Ainda que meu discurso inicial tenha sido “Porra, não é que esse fdp tá certo? Não é que esse corno está dizendo uma verdade?”. E mesmo depois de tanto tempo, de tanto aprender que não é bem daquele jeito, ainda há muita coisa desse discurso do BK que concordo também?

O que efetivamente me paralisou, me “quebrou as pernas”, foi essa sensação irracional e absurda de que, mesmo a morte do Zé sendo de uma causa inevitável como um câncer de pâncreas que nunca havia sido detectado até ser tarde demais, eu considero como uma espécie de vitória das forças do mal, ou mais precisamente, a canalização de toda aquela energia negativa da coletividade que não podia ouvir falar do JRP que já queria que ele se fodesse. E havia o contraste, anteriormente, ele desafiava os macumbeiros meio que na base do “a macumba não funciona, ou só me fortalece”. Em suma, a sensação é de que o BK acabou sendo carmicamente punido pelo seu comportamento de “troll”.

E eu fico bastante entristecido, pois, apesar dele ter conseguido passar um grande recado com o livro do Mil Nomes, ele não conseguiu terminar o que eu pessoalmente considero o trabalho mais significativo da vida dele, ou pelo menos, o acerto de contas com os personagens mais antigos do Zé, outrora Elementais, agora simplesmente Pedro, Morganna a Executora, Princesa e a Kyoko.

Nem quero entrar no mérito da perda dele para junto de sua família. Pelo discurso dos podcasts após o problema cardíaco que ele teve alguns anos atrás, ele demonstrava estar muito mais preparado para morrer que qualquer um dos nossos conhecidos em comum, sem contar eu mesmo. Mas bate uma sensação de incompletitude, de expectativa frustrada, do que jamais vai poder ser finalizado porque mesmo que outros assumam a tarefa de completar e publicar o livro inacabado, não será a mesma coisa, o mesmo ponto de vista, as mesmas decisões de escolha de palavras.

O José Roberto era único. E dava um duro desgraçado para transpor sua individualidade em suas ficções, criar seus mundos imaginários e habitá-los com suas regras próprias, ainda que derrapando no fluxo narrativo ou, por suas críticas ácidas e “troladoras” às obras alheias, ganhou inúmeros opositores e detratores, que logo trataram de esmiuçar as referências e coincidências, acusando-o de plágio, de chupinhar esta ou aquela situação. Pode até ser verdade, mas, havia... HÁ algo no caos descritivo e inventivo das histórias do BK que É único, SÓ ELE poderia ter escrito aquilo. Se seus textos seriam apreciados por mais pessoas além dos poucos que admiravam sua obra, dificilmente saberei.

O que resta de lições de vida, eu descrevo duas: uma diretamente dele, e outra, a título de contraexemplo.

  1. Enquanto criador, seja determinado a deixar sua marca no mundo, seu testemunho pessoal de seu tempo. E lute por esse objetivo com todas as forças à sua disposição.
  2. Talvez não valha a pena se indispor com a coletividade para impor a sua razão. Por mais forte que um homem seja internamente, espiritualmente falando, a energia negativa dessa quantidade de desafetos que cresce dia após dia acaba te comendo pelas beiradas, e um dia a sorte desse homem forte acaba.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011