sábado, 25 de julho de 2009

Um momento especial. O presente do Ator e para o Ator

Gero Camilo como Naum, o porteiro - ©2009 Globo - Todos os direitos reservados

Os Presentes


Kléber Albuquerque

Que presentes te daria?
Uma estrela vã do firmamento
Pra iluminar o vão do pensamento

Uma tevê na garantia
Árvores plantadas no cimento
E meu perfume na rosa-dos-ventos

Um novo ritmo da Bahia
Cartas de amor com frente e verso
E meu percurso nesse universo

Nas horas sem fim
Em que a dor não tem mais cabimento
É no teu prumo que eu me oriento

Catedrais de alvenaria
Senhas pra não mais perder a vez
Casa, comida e um milhão por mês





Eu vi um ator ser presenteado hoje, no último capítulo de uma minissérie da Globo, o Som & a Fúria. Ele foi presentado com a oportunidade de um monólogo, no final do episódio, em que o seu personagem, o porteiro do Teatro, tem uma oportunidade de se apresentar o seu improviso no happy hour, quando o pessoal encontra-se no bar/café em que todos se reúnem após as apresentações e o dia de trabalho.

Lá, em meio a um público de amigos, ele solta o seu poema, meio musicado, como se fosse um repentista, acompanhado pelos demais com instrumentos musicais.
E, no meio da minissérie da rede Globo, com sua pouca audiência tanto pelo horário ingrato quanto pela temática mais elaborada e não lá muito popular, me perguntei quantos desses poucos telespectadores teve a felicidade de perceber que o poema recitado pelo personagem do Gero Camilo não foi escrito pela equipe de roteiristas da adaptação do original Canadense para a minissérie televisiva, nem foi retirado da obra de Shakespeare: era um POEMA QUE ELE PRÓPRIO USAVA EM MONÓLOGOS EM SEU INÍCIO DE CARREIRA, um que vi há mais de dez anos atrás, antes dos papéis no cinema, das participações especiais em minisséries. Não ouso arriscar se ele mesmo, Gero Camilo, teria escrito tal monólogo, mas, ver um ator ser presenteado com uma oportunidade dessa, em que praticamente ficam misturados personagem e trajetória pessoal, sem destoar do conjunto, sem parecer forçado, aliás, parecendo até que foi escrito também pelos próprios roteiristas da telessérie, e só quem conhece as histórias de bastidores e ouviu aquelas palavras da própria boca do Gero em pessoa há tanto tempo atrás... (nem sequer me lembro se era show da Ceumar, da Rita Ribeiro ou da Natália Malo, ou talvez até fosse de nenhuma delas, será que era do Kléber Albuquerque? Só lembro que a Tata Fernandes, a mulher do Kléber, estava na platéia e que foi no Centro Cultural São Paulo... à época eu ainda andava com esse povo, e provavelmente o Gero também)

Será que alguém pode entender a maravilha que é esse presente da obra de ficção refletir de maneira metafórica, homenageante, um episódio da vida real? De reinventar um fato real dentro das regras do jogo estipuladas pela obra ficcional em questão?

Lembro-me de uma metáfora semelhante, só que no meu meio ambiente, os gibis... tinha a ver com uma espécie de grande decisão editorial de reformulação total da cosmogonia de diversos personagens clássicos, que se refletiu em todos os títulos da editora, e todos os arcos de histórias dos mais diversos personagens tinham que se encaixar no grande quadro geral ancorado pela publicação-chave em doze edições que consolidava a mudança editorial.

Houve um título que já vinha sendo produzido de maneira a revolucionar o modo do personagem, e o autor, um talento ímpar, maliciosamente criou um arco de histórias que não se furtou à reformulação geral dos personagens muito menos ao grande evento que era narrado na publicação-chave, apenas abordou uma parte que ficava metafísica e metaforicamente distante, porém essencial. E providenciou uma história que podia ser traduzida como o despertar da consciência de uma inocência do mundo em preto-e-branco, os bons como puramente benevolentes e os maus como absolutamente malignos dando espaço às nuances de cinza, áreas misturadas, e nisso o papel do mal como o plano de fundo, o contraste realista que serve justamente para se valorizar e destacar as virtudes.

E em meio a tudo isso, o personagem-título, vai decidido, mas não para combater, mas sim em resignação, pois ele nada podia fazer perante aquela entidade, apenas ir lá porque precisava fazer alguma coisa, e simplesmente... DIALOGA. E, em meio ao diálogo, aquilo que a entidade tanto almejava compreender... ela CONCLUI, ajudada pela conversa! E o destino metafórico, tanto do personagem quanto aos próprios rumos do título, não poderia ser mais simbólico "Parta livremente como você entrou!"




E eu acredito estar atingindo esse nível de metáfora, de recriação de eventos do mundo real nas regras de minha própria ficção, como costumo brincar, meu Jornada nas Estrelas com sérias restrições orçamentárias (tá mais para Star Wars, com esse negócio de jornada do herói solitário em sua busca de cavaleiro em cruzada). Mas, meu Deus, como dá trabalho costurar cenas, dar andamento às sequencias... vida de roteirista não é fácil... como se de desenhista não fosse igualmente desafiadora, cansativa, e árdua. (chorão do caralho!)