domingo, 22 de fevereiro de 2009

“Você quer saber o segredo do morcego?”

...Laerte Coutinho filho da mãe... nunca consegui esquecer aquela piada...
Aqui neste caso, é o segredo do Latão, nunca antes revelado ao público!!!
(adoro historinha de bastidores! uma vez fofoqueiro...)




Heróis que receberam uma segunda chance na vida.



O fio-condutor, premissa-inicial e situação-base das aventuras do ALMA DE AÇO (“ser heróico que desperta sem memória e parte em busca de sua origem e de seu lar”) não apenas não era novidade alguma - A Odisséia e seu protagonista Ulisses, de Homero - como ainda era “chupinhada” descaradamente de um episódio da HQ “ROM - o cavaleiro do Espaço”, publicada na revista do incrível Hulk da Editora Abril.

Bem, e qual seria o problema?

Em meados dos anos 1990 fui apresentado a uma história em quadrinhos japonesa maravilhosa, chamada GUNNM: trad. “sonho da arma” (na época, era a edição americana, onde a série tornou-se BATTLE ANGEL ALITA), cujo primeiro episódio foi a nossa heroína, GARY (ou Gally ou Alita, escolha o nome que melhor lhe convier), é resgatada de um lixão cibernético por um médico de ciborgues e é reconstruída por ele. Ela perdeu a memória, mas não parece nenhum drama, o doutor confia que Gary as recuperará com o tempo.

E nossa heroína pega e trata de se adaptar àquela nova vida, como filha adotiva e querida daquele homem... num mundo futurista e violento, e quando a coisa apertou no primeiro episódio, o subconsciente dela se manifestou como uma guerreira filha-da-puta capaz de ganhar grandes lutas!

O sonho da arma!!! Gun Dream, que por incrível que pareça, GUNNM não é “ajaponesação” dessa expressão americana, é japonês legítimo, ideograma e tudo!

Se você não tem memória, não tem passado, não tem obrigações, não tem amarras. Eventualmente pode bater a curiosidade sobre que tipo de vida você levava antes, e até mesmo que tipo de pessoa você era antes de esquecer.


Aí, refaz a vida, e tenta levar da melhor maneira possível. Tenta ser feliz. Que nem o Ulisses (Odisseus), na companhia da princesa Nausicaa, antes de recuperar a memória e ter que voltar pra dar um tratos na sua querida Penépole e voltar a dar broncas em seu querido filhote pentelho Telêmaco...

O pobre do Alma de Aço nunca jamais em hipótese alguma teve condições de refazer a vida, era uma premissa básica da série, e justificada por uma "1ª DIRETRIZ" (santo robocop)!


Não preciso dizer que quando li aquela “Battle Angel Alita” me veio uma sensação de “porra o que é que eu vou fazer agora? fudeu, taqui a trama do Alma de Aço, se eu soltar agora vai todo mundo cair de pau dizendo que chupei descaradamente deste japa aqui!!!”

Entretanto... não apenas virei fã de carteirinha da série deste autor, Yukito Kishiro, como também redigirei posts inteiros acerca das visões de distopias futuristas deste... e como ele está influenciando terrivelmente minhas regurgitações mentais sobre o Alma de Aço.

E uma coisa muito importante que as inúmeras leituras de Gunnm me fizeram concluir: apesar da semelhança pela questão da amnésia, temos diferenças brutais: Gary (Gally/Alita) se assemelha mais ao texto de Pinóquio, com um pai apresentando um ser inocente ao mundo, e ensinando os caminhos do certo e errado. Só à medida em que a trama avança e a sensação absurda de familiaridade e de autoconhecimento no campo de batalha vai fazendo com que ela queira (?) se lembrar de seu passado. Já o Alma de Aço é uma criatura incompleta, obcecada por um passado que nem sequer sabe como é ou o que é ou por que é... ele foi PROGRAMADO para agir dessa maneira, para bancar o defensor de sabe-se-lá qual planeta, e essa programação que a pifada na memória não conseguiu cancelar vive martirizando o bichinho, impelindo-o a ir atrás de um lar que nem sabe se existe mais, e impedindo-o de sossegar o facho e deixar fincar raízes em algum canto e tocar a vida pra frente (tá bem parecido com o nosso amigo obcessivo, Odisseus, santa Odisséia, batman.)

E a metáfora é perfeita e maravilhosa: ALMA DE AÇO é a história de um ser que ganha uma segunda chance na vida... mas sem o direito de usufruir dela direito (sic!) e Fernando Aoki ganha uma segunda chance como autor de histórias em quadrinhos, agora usufruindo de tudo o que a maturidade e a medicina mental lhe permitirem! (sic: ô trocadilho burro, me empolguei... fica assim mesmo!)

E quanto ao fator originalidade, tão precioso, tão caro e tão necessário a qualquer um que acompanhe o que vem sendo produzido aqui no Brasil, nos Estados Unidos, na Europa, no Japão, ah, esta necessidade de ser o único, o princípio da exclusividade... tenho que trabalhar isso como se deve, não? Afinal, Gary e o sr. Kishiro me mostraram o JEITO CERTO de fazer uma boa história de ação e aventura futurística... mas... NÃO DO MEU JEITO, NÃO MINHA VERSÃO DOS FATOS!!!


Eu sigo as lições do quadrinhista Laerte e do escritor inglês Neil Gaiman: ABRACE A SEMELHANÇA!!!


Eles nunca recomendaram isso explicitamente.

  1. Laerte, quando contaram para ele que seu personagem Overman é igualzinho ao Space Ghost, começou a fazer o Space Ghost aparecer nas tirinhas!

  2. Neil Gaiman quase quis desistir de fazer o arco de histórias “Um Jogo de Você” (na série do Sandman) quando tropeçou num livro do escritor Terry Prachett que falava basicamente da mesma situação, o mesmo enredo!!!
    Gaiman encontrou com esse escritor, explicou-lhe o problema, e foi aconselhado pelo Prachett a mostrar A SUA VISÃO, A VISÃO DE NEIL GAIMAN sobre este tema.
    Não apenas “Um Jogo de Você” é considerado uma das melhores histórias do Sandman como também alguns anos depois Gaiman estava escrevendo livros em parceria com Prachett.


ERRATA - correção Abr/09 - Segundo meu grande amigo José Mauro Trevisan, a coincidência de “Um Jogo de Você” foi com o livro “Bones of the Moon” do escritor Jonathan Carroll, com quem Gaiman se encontrou e foi aconselhado a ir em frente com sua própria versão dos fatos.


E agora, é a vez de Fernando Aoki, e seu robô desmemoriado ganharem voz, cor, luz, e conquistarem seu espaço... nem que para isso tenham literalmente que ir para o mesmo!







Imagens de Gunnm: ©Yukito Kishiro - divulgação

Imagens dos Piratas de Tietê e Overman: ©Laerte Coutinho - divulgação

Imagens dos livros: ©Neil Gaiman e Terry Prachett - divulgação

12 comentários :

  1. Bom, o único que pôs essas 'explicitações', se não me engano, foi o Alan Moore (mais ou menos assim): "Todas as histórias do mundo já foram contadas. O segredo é saber contá-las agora de uma forma diferente."
    Considerando que não é todo mundo que conhece a B-A-Alita, até que seu Latão pode se tornar uma referência original para alguns - basta a história tocá-los de uma maneira diferente!

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  2. Vai ser diferente, sim... agora tendendo mais ao irreverente, ao herói querendo botar banca de sério, enquanto seus oponentes tiram barato da postura heróica... (o apelido latão, que o Zé Roberto Pereira usava para se referir ao meu personagem, será empregado também nas histórias).

    Gunnm tinha bastante humor, e não tenho a menor vontade de manter continuamente um tom sério e sisudo para o Alma de Aço, do mesmo jeito que o roteiro que fiz em 1991. Vai ter seriedade nas tramas, sim, mas sem sisudez.

    A bem da verdade, a proposta do Alma de Aço era ser um tipo de Super-Homem com desculpa lógica para ser invulnerável: quebrou, conserta! Foi o Tony Fernandes, que iria publicá-lo em 1986, que me sugeriu que ele tivesse algum tipo de gancho, de motivação para o leitor querer acompanhar suas aventuras. Aí inventei o lance dele ter amnésia e devido a uma diretiva Zero estar doido para voltar para casa.

    Isso não mudarei na reformulação do personagem, já o resto, não prometo nada!!!

    Me aguarde, e obrigado por vir até meu nada humilde blog!

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  3. Esse título Alma de Aço combina muito bem com a concepção original de um personagem sério que suporta o sofrimento causado pela diretriz.

    Pergunta talvez cruel: já tem alguma previsão de quando vai começar a fazer essa história, roteiro definido com duração, como termina e tal?

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  4. Não, nada previsto no momento, só intenção de criar um episódio de lançamento do personagem, história fechada de aproximadamente 28 páginas, que chame bastante a atenção sobre ele (que nem os caras da Marvel e da DC faziam nos anos 70 e 80 quando queriam testar um personagem em edições de coletâneas, para ver a reação do público e em virtude disso dar seguimento e eventualmente uma série própria.

    Obviamente estou revendo bastante a dose de drama e tirando o teor excessivamente sério das aventuras do personagem (ele mesmo pode continuar com seu humor de merda depressivo e meio EMO, mas as situações que ele terá de encarar doravante, NÃO!)

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  5. Passa no MBB e veja o que eu escrevi a seu respeito.

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  6. Orra, BK, demorô, heim!!! Vinte e dois anos de “nou-háu” e só agora você “quebrou o cabaço” de falar alguma coisa de mim, além de Peixotos, Nagados e outras criaturas fantásticas que cruzaram nosso caminho outrora!

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  7. Olá Aoki,reformulações de roteiro realmente as vezes são meio constrangedouras eu tive que mudar algumas vezes,para não passar por "fanfics" porque o pessoal detona mesmo,e uma dose de humor e sempre um suporte para um roteiro apesar de eu ser péssimo para isso vlew!

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  8. Bom, risco de parecer chupinhação descarada a gente corre de qualquer maneira, ainda mais nos dias de hoje em que praticamente já escreveram de tudo, de todos os gêneros... mesmo assim, sempre encontramos histórias que mesmo nos fazendo recordar esta ou aquela situação daquele nosso personagem favorito, ou simplesmente daquele filme que vi na tevê outro dia, mesmo com toda essa coincidência, sempre acaba tendo um ponto de vista diferenciado, um novo aspecto que não existia antes! E fica VALENDO A LEITURA!

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  9. Inconsciente coletivo. Akasha. Recombinar é lícito! Ninguém cria, todo mundo acessa e recria. E isso é que é legal! ;-)

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  10. Animus e Anima...
    Acessando os acessórios... hmmm... null?

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  11. Salve, grande Slang!
    Esperava ter algo mais inteligente para escrever como meu primeiro post no seu blog, mas enfim...
    Sei exatamente como você se sentiu ao saber que a "originalidade" do Alma de Aço não era assim tão original.
    O filme 10.000 AC fez um "belo estrago" n' "A Ira de Lyana", ou melhor, em sua provável versão estendida "Lost in Time II", mas agora com o que li, posso aprender a viver com isto...

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  12. Rogério, se nós esperarmos demais até termos algo de inteligente para retribuir às cartas e aos posts, não iremos responder nunca... tudo bem que eu exacerbo e cuspo... aliás, metralho toques sem pensar duas vezes, e sai umas coisas que mereciam um belo dum copidesque, mas solto assim mesmo, sem censura prévia e muitas vezes sem noção... é um jeito de desenvolver melhor minhas capacidades criativas sem me auto-podar.

    E lembre-mo-nos: todas as histórias já foram escritas... portanto, a nós, só nos resta a reinvenção e a recombinação de elementos com nosso toque especial e particular!

    Veja as boas repercussões que Lost In Time - the comics, está provocando aqui neste meu blog!

    Em breve, a retomada dos desenhos!!!! (desenferrujem, ó braço travado... ó mão engripada!)

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Elogio ou crítica? nunca censuro nada, mas... não ABUSE! hehehe