segunda-feira, 1 de setembro de 2014

O resgate das memórias e perdas que ninguém parece se importar...

“A Prisioneira D’Alma (Sérgio Molina e Lílian Jacoto, interpretado pela banda Canastra)

Cada detalhe me comove
Me mexe, eu deixo me envolver
E de tal modo que eu fico louco
E loucomovo o mundo eu levo
Cada detalhe...

Eu tenho as mãos atadas com carinho
Eu venho e me emociono aos pouquinhos
Eu sinto a sombra, a morte é branca
Eu sinto o frio, a morte é neve

And never more tive um amor”

(http://www.molamusical.com.br/discografia.php)


“Quando Ismália Enlouqueceu (Sérgio Molina e Lílian Jacoto, interpretado pela banda Canastra)

Ao longe, o mastro de um navio
Percorre o mar, até o céu.
Vai longe e busca o nunca mais,
vai longe e busca o nunca mais.

O breu da bruma esconde a quem?
Que olhos têm a escuridão que encobre a torre de marfim?
Que ouvido sonha o canto atroz?
Que lábios sentem o fado meu?
Qual olho espreita a nau veloz?
Que mágoa tece o fardo seu?

Dispersa, a noite se perdeu,
sonhando à nau acompanhar,
porém, girando em solidão
pergunta a esmo sem cessar:

Aonde o tempo em mim, se esconde?
Aonde, aonde?

Aonde o tempo em mim, se esconde?
Aonde, aonde?

Quem dera fosse uma fragata
que navegasse além da morte
e quem me visse, visse um ponto
o centro, o norte do horizonte

Aonde o tempo em mim, se esconde?

Aonde, aonde?

Aonde o tempo em mim, se esconde?
Aonde, aonde?

Que morte sou e desconheço
De quem o brilho que disperso
E faço náufrago de mim
E faço náufrago de mim

No mar, à tona surge a lua,
E envolve a nau até o céu.
Na torre, Ismália pende a voz
E em dissonantes tons,
Menstrua.”


A grande diferença entre essas duas músicas é que a primeira recebeu um registro, foi gravada no único CD da banda, por volta de 1992 ou 1994 (memória falhando aqui). Ambas são melodias lindas, com arranjo instrumental fantástico e interpretação impecável. Ambas dignas de perpetuação de alguma forma, transcendendo a lembrança de quem teve oportunidade de apreciá-las e ouvi-las. A segunda só sobrevive na memória daqueles que a compuseram e a interpretaram, eu mesmo só pude resgatar a letra da “Ismália” de memória, e chutando as partes que não lembrava mesmo em palavras que pareceram formar uma trama coerente.

Eu cometi umas barbaridades que me fizeram extraviar as minhas gravações em fita cassete dessa música, ou seja, eu mesmo perdi meus próprios registros da mesma, e retomando contato com seus autores e intérpretes, não há planos nem interesse de regravar tal música, fizeram uma tentativa de reaproveitar alguns trechos numa nova música, Orfeu, mas confesso que, apesar de manter a beleza, fica uma sensação de “falta algo”, de que aquela música não faz justiça à original. Deve ser uma questão de lembrança afetiva, não obrigatoriamente associada ao objeto em si, mas às circunstâncias, como na fábula do rei e do cozinheiro (texto atribuído a Walter Benjamim).

Eu só tenho boas lembranças dessa música, e o pensamento recorrente de que, a despeito do desfecho melancólico do esquecimento e da existência vã, pois ela partiu para o mesmo canto das doces recordações da infância (muito longínqua, no meu caso), em que podíamos soltar as crianças na vizinhança, elas se reuniam com seus amigos e brincavam pela rua, sem maiores preocupações, mesmo um carro ou outro passando não consistia em grande ameaça. Situações boas de tempos antigos que não têm mais contexto nem vez nos dias atuais.

Eu posso especular o que é uma pessoa ter criado, ou participado da criação, de uma obra artística que afetou positivamente as pessoas, trouxe beleza, alegria, ou desconcerto para elas. Que toca a alma de alguém. Acredito piamente que essa sensação de ter produzido um legado positivo ao mundo ajuda a dormir melhor à noite. Eu sinto isso quando penso em algumas das pessoas que ajudei em situações-chave de suas vidas, como as que ajudei a finalizar seus trabalhos de formatura da faculdade, ou uma ou outro autor de histórias a quem pude dar uma dica útil.


Como de hábito, eu sempre busco amarrar minha exposição inicial com o assunto recorrente deste blog, minha própria produção de quadrinhos. O tempo passa, um monte de tecladas ruminando coisas interessantes e até mesmo dignas de virarem quadrinhos, e não sai disso. Nenhum desenho. As dúvidas sobre a validade e a qualidade das sinopses, das iniciativas, pedindo e implorando por aceitação de outros que não eu mesmo, essa mendicância por atenção, literalmente pendurando uma melancia no meu próprio pescoço.

O essencial fica de fora, o desejo de perpetuação de espécie, de legado, convertido numa vontade de fazer histórias que persistam na memória dos leitores, do mesmo jeito que diversas histórias (diversas delas consideradas ainda hoje “antológicas”) persistem em minha memória até hoje. Meus amigos músicos fizeram um trabalho primoroso com suas músicas, e mesmo assim… poucas pessoas delas se lembram, bem menos pessoas que puderam assistir aos shows, testemunhá-las ao vivo, apreciá-las… e amá-las, como eu!

Confesso não apreciar a perspectiva de destino igual para minhas obras ficcionais, mas aí lembro-me da própria trajetória desses meus amigos músicos, até hoje se dividindo entre ganhar a vida e realizar sua arte. E lembro-me da maravilha, do encantamento proporcionado pelas músicas, lembro-me de sua capacidade de encantar não apenas a mim, como também a outras pessoas. Lembro-me da ausência de arrependimento de quem comprava o ingresso e teve a sorte de ouvi-los. Lembro-me de artistas do calibre do Itamar Assumpção, tão marginalizado e penando tanto para realizar sua música a ponto de cogitar em largar tudo para se tornar frentista de posto de gasolina, até que ser convidado para fazer shows na Europa, principalmente na Alemanha, e finalmente ter sido reconhecido em vida antes de morrer.

Lembro do meu falecido amigo Zé Roberto Pereira, insistindo em sua arte literária, seus escritos de pegada pop porém enfoque único, da sua iniciativa em escrever textos para “deixar a alma do leitor de pau duro”, como ele vivia dizendo que este seria o melhor critério para a autoavaliação honesta que um autor pode exercer sobre sua própria ficção: o teste da leitura, se o que você bolou na intenção e na vontade realmente se materializou, na cristalização proporcionada pela narrativa escrita/desenhada, em algo que transcenda a mera inspiração e orgulho de criador, mas que seja tão memorável, tão inspirador quanto as histórias antológicas conseguem, te deixem a alma de pau duro! Histórias com as quais as pessoas, por menos pessoas que sejam, se importem!

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Deus está nos detalhes... e o diabo, também!

Elegias

A melhor coisa de você ter uma audiência composta apenas por pouquíssimas pessoas é que você tem a liberdade de postar qualquer besteira apenas para manter o hábito da escrita e afugentar os demônios da imaginária e doentia falta de inspiração (o outro nome da preguiça).

Queria antes escrever histórias que impressionem, que gravem pelo fogo da inspiração sua trajetória na lembrança dos leitores, que acabem virando comentários casuais em rodinhas de amigos reunidos, que virem sátiras e trollagens em posts de facebook, que emocionem as pessoas até que o boca-a-boca as espalhem para muito além do gueto e do nicho.
Quero pegar situações do cotidiano, vivências reais ou medos reais das pessoas, dramas passíveis de comoção, identificação, interesse por quem gosta de acompanhar a vida alheia, ou mesmo gosta de um entretenimento baseado em obras ficcionais. E tenho particular apreço por fugir da “estética” do cronista, e reinventar tudo, simbolizar e metaforizar, o que gosto de chamar de “realidade reinventada”.

Já me alertaram sobre o risco real de expor fatos de minha vida pessoal nessas metáforas, por mais bem mascaradas através de um gênero ficcional tão descompromissado e leve como quadrinhos de aventuras de temática super-heroística, mas acredito piamente ser um risco que vale a pena correr, independente da minha competência como narrador, como contador de histórias, como reinventor de realidades.

O insight, aquele instante divino em que o autor tem total ciência e certeza do que deve transpor para o papel... (e estou tendo de transferir teclando as anotações de meu celular para o computador por ele não ter o recurso de copiar-e-colar, são só recordatórios mesmo!)
A bem da verdade, essa tal inspiração divina está diretamente associada à consolidação de todo um esforço diário e cotidiano de escrita, de labor, os tais 99% de transpiração tão famosos atribuídos à frase de Albert Einstein! E está correto, tão verdadeiro quanto afirmações de sensatez que afirmam que a sorte só aparece mesmo àqueles que já vinham se preparando desde sempre. Oportunidade é quando o acaso coroa seus esforços, e não vejo razão para abrir mão desta crença.

No último post, havia assumido um compromisso com meus leitores de detalhar e descrever a tal da história que era um exercício de destravamento e acabou virando outro monstro, mas senti que é muito pior deixar meu blog parado e inativo sem nenhuma atualização, daí esta postagem no puro improviso, sem a linha de raciocínio de introdução-tese-conclusão que tanto aprecio em meus próprios textos (uma vez dissertador, sempre dissertador!). Aos que realmente aguardavam atualizações, me desculparei apropriadamente nos próximos posts.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Indo longe demais na retomada...

A tarefa deveria ser simples. Atender a demanda, isso bastava.

Uma tarefa simples e banal, sem complicação, de entrega simples. Apenas meia hora do meu tempo, nada sofisticado, elaborado. Apenas a retomada após uma devastadora e prolongada hibernação, sob os auspícios da procrastinação permanente.

Era uma premissa interessante: se eu me sentia bloqueado em função da grandiosidade e da quantidade de elaboração que apliquei na reconcepção de meus personagens e de minha série, e se era o vulto e a premisumível trabalheira que vislumbrei para materializá-los que me fazia travar e partir para uma procrastinação permanente, então eu deveria me exercitar com coisas muito menores e menos intimidadoras.

Seria como um simples exercício descompromissado, como aqueles treinos copiando desenhos de anatomia só para melhorar a técnica: não é para fazer e sair por aí mostrando, é desenferrujar músculos. Praticamente como um ex-praticante de atividades físicas que resolve retomar os exercícios, e sob recomendação médica, começa com atividades leves, no limite de peso suficiente para fazê-lo se sentir ativo novamente, mas sem chegar a forçá-lo, a confrontá-lo com limites físicos que poderiam machucá-lo e inviabilizar sua capacidade de se exercitar novamente no futuro.

Foi uma grande ironia eu mesmo ter sugerido no último post deste blog que, se uma pessoa não soubesse muito sobre a arte de quadrinhizar situações, então que tomasse algo beeem descompromissado e insípido/inodoro (do ponto de vista afetivo e emocional), como um vídeo divertido do youtube, para transcrever as cenas paradas do vídeo, escolhendo as mais marcantes e a partir da recriação da trama como uma fotonovela (ou desenho a partir dos fotogramas), aprendesse noções sobre quadrinhização que poderia usar em sua própria história.

Mal percebia eu que, com todo o encaminhar de minha trajetória profissional desvinculada dos quadrinhos para a direção de projeto e programação visual (e recentemente, criação de conteúdo a partir de vantagens e benefícios de produtos), eu mesmo deveria exercitar minha retomada da forma que recomendei aos iniciantes: tomando como inspiração um material descompromissado e (principalmente!) emocionalmente indiferente. Eu não posso me tratar como o ex-praticante de esportes que resolve retomar carreira. Eu sou o cara que ficou anos acamado, com o corpo definhando, que um dia se vê em condições de sair da cama, mas para fazer coisas bem simples, como sentar, se levantar e dar alguns passos, tem que aprender tudo do zero, tem que reaprender tudo. Não se trata simplesmente de recondicionar o corpo: Fisioterapia é a palavra correta!!! E do tipo reaprender a andar mesmo!

Certo, e por que não houve esse exercício de retomar atividade com algo bem simples, como as anteriormente citadas fotogrametrização (ou fotonovelização) de vídeos curtos de youtube, os irônicos ou os engraçados? Tudo totalmente desvinculado emocionalmente, sem o menor risco de adiamentos por razões emocionais, aliado à proposição de, sendo um exercício de desenferrujamento, jamais seria necessário mostrá-los a quem quer que seja?

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… A ideia idiota! Pretensiosa, um exercício de prepotência no final das contas!

Parecia ser tranquilo, sem maiores dificuldades, e uma retomada digna de um suposto legado no meu imaginário no qual eu me imaginava como um grande talento do quadrinho nacional que, a pretexto de falta de perspectivas profissionais (que acobertaram as verdadeiras razões de acovardamento puro) se afastara do meio e que agora iria retornar e deixar a todos de bocas abertas com a alta qualidade de seu trabalho, de sua ficção. O legítimo representante da velha anedota de “A volta dos que não foram”, tão utilizada em piadas dos fins dos anos oitenta e que na verdade nunca soube qual era o sentido dessa anedota em si, mas apenas vim vivenciando desde que abri este meu blog numa tentativa de reconciliação com meu passado renegado e abortado de criador de narrativas.

O paradoxo de sempre condenar os autores que, a despeito de suas limitações, expunham à luz, ao conhecimento público, suas artes, suas histórias, condenados por mim pela flacidez de ideias, independente do quão elaborados ou até mesmo bonitos tenham ficado seus desenhos. Condenei-os por praticarem ficções que me doíam ao intelecto e eu mesmo via meus próprios devaneios crescerem como boas narrativas, convincentes, comoventes, mas que aprisionadas em forma de pensamentos sem sequer se fazerem presentes na forma de rascunhos, nunca eram postas à prova da leitura de outros como os quadrinhos deles estavam sendo. E essa inveja me consumia, e eu a disfarçava com um discurso, com desenhos velhos feitos por um jovem mal saído da adolescência que era um arremedo de recortes, microplágios e fanfics retirados de várias obras diferentes, mas de costura tão pífia e tão incipiente que só com muita boa vontade você perdoa, e apenas se levar em conta a idade e inexperiência da pessoa à época, no agora longíquo ano de 1986.

Se, se, e se. Condicionais. E especulações mentais, autossabotagens, procrastinações, fuga para atividades prazerosas como joguinhos de computador (e agora de celular), qualquer dispersão para evitar sentar numa cadeira e sair rascunhando, rabiscando, ou mesmo num processador de texto para desfiar anotações e observações úteis em construção de situações, tramas, dramas e personagens. No entando, o maldito do discurso estava lá.

O discurso de “eu mereço mais do que simplesmente desenferrujar minha prática com um mero exercício de quadrinhizar um vídeozinho engraçado, daquele tipo vídeo-cassetada ou ‘porta-dos-fundos’”. E o que, na minha visão deturpada e prepotente até além da tolerância, seria um exercício básico e sem maiores dificuldades, face à paralisia que vinha (e venho) demonstrando em realizar as historinhas do homem-de-lata com alma-de-poeta (tá mais pra “pateta”, que nem o criador dele, sim, cabe direitinho o velho clichê do protagonista ser um espelho do autor, definitivamente fugir à obviedade foge à minha capacidade, só me sobraram a inventividade em rimas porcas). Explicando o citado exercício: consistia fazer um trabalho mais leve e menos emocionalmente conectado comigo, uma trama curta onde eu especulava com personagens secundários do universo do Alma de Aço, num momento do futuro após o encerramento da série principal. Praticamente um fanfic, só que com personagens de minha própria lavra. O raciocínio parecia interessante: sendo personagens secundários, e estando temporalmente desconectados da série, ou seja, o que fizessem naquele momento não iria influenciar o destino da saga (aquela praga!).

Era para ser uma brincadeira descompromissada, inconsequente, para destravar mesmo. Deveria ser curto, poucas páginas, oito, dez, doze. Não deveria ser algo digno para ser mostrado a quem quer que fosse, embora, a título de terapia, eu devesse me impor alguma espécie de entrega para checar os progressos (não logrei fazê-lo).

Ao invés disso, eu criei uma pequena trilogia sobre monstros criados pela ciência humana (apesar de se passar num universo alien, os protagonistas envolvidos são humanóides o bastante para eu considerá-los humanos), questionando a si mesmos, ao seu propósito de existência (dando continuidade às questões fundamentais do seriado do Alma de Aço, só que sendo uma espécie de desdobramento), contrapondo-se à forma como os seres humanos de geração e criação biológica (não dá pra chamar de espontânea, tirando a arte e a caganeira, nada do que o ser humano faz é espontâneo, tudo é pensado e planejado, proposital enfim, o que ocorre são imprevistos na execução!). E ganhei mais um bloqueio criativo, o exercício de destravamento ganhou asas maiores do que o esperado e agora é mais um backlog para me cobrar a dívida de sangue… quero dizer, a dívida em existência, em nascer e sair dos recônditos seguros da minha mente para o mundo hostil da crítica alheia!

(fim do episódio - “owari”)