sábado, 23 de maio de 2009

Teoria de botequim (1) - criando polêmicas

Por que Super-Herói Brasileiro não consegue ser convincente?


Nós temos entranhado, em nossa cultura, que este aqui é o país do jeitinho, o país dos espertos: quem não for esperto é feito de otário, só pode ir mesmo para a religião que promete a salvação para os martirizados que se conformem com seu papel social e esperem a salvação vinda de um ser superior que vai distribuir justiça ao homens e a você, “não-esperto”, desde que você siga o caminho do bem e da retitude, e acate os preceitos das instituições... ou vira um punk revoltado e alienado. As instituições são falhas em preservar a vida, os direitos e os pertences das pessoas de bem. As pessoas espertas aproveitam as brechas dos sistemas para não ficarem no papel de vítima, só que normalmente não ficam apenas no posto de sobrevivente com regalias, quer mais: acabam ascendendo ao poder, à autoridade, à formas de domínio sobre os demais comuns e humildes. Os humildes são reduzidos à condição humilhante de crentes ou de massa de manobra, simplesmente OTÁRIOS, e isso se reflete em TODAS as formas de entretenimento presentes, desde as piadas nos jornais e nos e-mails, nas tirinhas do Angeli, do Laerte, e nas charges políticas, nas telenovelas, no gibi da turma da Mônica...

No meu entender, é gerada uma frustração enorme na forma em que as pessoas são submetidas a essa mensagem subliminar massacrante, e existem formas de lazer escapista em que o humilde e o fraco até continuam como vítimas, mas não mais tratados como otários e os errados que nunca jamais terão oportunidade de sair da merda a não ser que entrem para a turma dos espertos... são as pessoas comuns dos gibis de super-heróis, descritos normalmente como coadjuvantes a serem salvos e a serem redimidos por entidades com habilidades sobre-humanas, quando não acabam sendo amigos destes seres superiores.



A versão brasileira não convence!


Os super-heróis e os heróis dos mangás de ação e aventura falam basicamente para as culturas locais de seus países de origem, mas têm um eco muito grande no interior dos leitores brasileiros, por oferecerem esta fantasia de compensação, sublimação! E tem a vantagem tremenda de contextualização fora do mundo brasileiro, ou seja, é escapismo também nesse sentido... isso explica porque a maioria das pessoas que gosta de histórias em quadrinhos de super-heróis torce o nariz para quando o autor nacional tenta emular esses símbolos, códigos e ambientações dessas aventuras para um brasil fictício... acabam ficando nada convincentes, a caracterização fica parecendo apelativa, discurso de petista ou de comunista em prol da nação... que não convence a ninguém!

O culto às antigas tramas simplistas, a um mundo mais simples, onde os bons são bons e os maus são maus, e o super-herói, acima da qualidade moral superior, triunfa sobre seus oponentes do jeito que todo mundo entende: SENTANDO BOLACHA NO VAGABUNDO DO VILÃO. Essas características acabam aparecendo direto nas histórias dos iniciantes e mesmo de autores com tempo de estrada nas costas... é EPIDÊMICO, é PRAGA, é que nem epidemia de DENGUE. Não se trata de falta de leitura, treino, discernimento.... TRATA-SE DA BENDITA DA CATARSE, da sublimação, da NEGAÇÃO DESTE MUNDO REAL ONDE SÓ A ESPERTEZA PROSPERA E O HOMEM CORRETO E JUSTO É CONSIDERADO UM GRANDESSÍSSIMO OTÁRIO QUE VAI SE F*&¨%$R NO FINAL POR QUE O MUNDO É MALIGNO ASSIM MESMO...



Querendo ver o herói triunfar sobre a esperteza...


E como disse no começo, MUITA GENTE QUE NÃO É ESPERTA ODEIA GENTE ESPERTA, E ODEIA MAIS AINDA VIVER NUM MUNDO ONDE A ESPERTEZA É A QUALIDADE NACIONAL MAIS ELOGIADA E APRECIADA PELA NOSSA CULTURA... e o produtor de histórias em quadrinhos ODEIA SER PASSADO PRA TRÁS NUM NEGÓCIO QUE FECHOU AS PORTAS PRA ELE... ser teimoso e retrógrado é mais do que simplesmente incapacidade... é ponto de honra e de protesto contra a esperteza das editoras que só publicam material estrangeiro porque este já vem a um custo absurdamente barato de licenciar e produzir... e histórias que não importam o quanto o autor rale, continuarão sendo mais espertas do que a obra dele..

Repetindo só para reforçar o conceito... gente esperta dá ASCO em gente honesta que só quer tocar a vida da maneira mais correta possível sem incomodar a ninguém... e o-d-e-i-a fazer papel de otário! E odeia mais ainda o quanto a mídia e a nossa cultura popular idolatra o esperto e vilipendia o justo e o bom como coisa de igreja, como coisa de fora deste mundo, como coisa que não é da natureza do brasileiro... eu amaldiçoo a lei do Gerson e amaldiçoo o impacto que a frustração de não pertencer ao mundo dos espertos causa nas demais pessoas, as faz se sentir diminuídas, frustradas, e voltando-se para exemplos e fantasias estrangeiras, onde o homem que ganha poderes não vai para a solução realista de tirar partido, aproveitar-se da situação: ele vai para uma nada realista cruzada em prol do bem contra o mal... parece o tal do jesus prometido pela bíblia que voltará no apocalipse para consagrar os humilhados e os probos e corretos, e punir definitivamente os ímpios e os maus, o São Sebastião que voltará do mar onde naufragou para trazer o caminho da salvação para o povo português... ansiamos a vinda do messias, os comics e os heróis dos mangás anteciparam a chegada dele... mas não para o brasileiro, só para o gringo e para o estrangeiro...

E nós, os fãs, que adoramos ler histórias de super-herói, ATÉ MESMO NÓS já notamos que a maioria das tramas atuais só é interessante porque os personagens são OBRIGADOS a usar a massa cinzenta para vencer seus desafios, são obrigados a ser mais espertos que os vilões para poder triunfar sobre o desafio que aparenta...



Infelizmente, a simploriedade não ajuda em nada o autor nacional...

E o bendito do autor gringo, por que ele funciona?


O que incomoda aos críticos, e com razão, é a persistência em modelos ruins e num tipo de produção quadrinhística que não apenas ofende a inteligência do leitor, como também não consegue angariar nem simpatia nem identificação com os dramas vividos pelos personagens, aparentemente só o próprio autor consegue se importar com o que vai acontecer com o seu personagem querido... faltam realmente elementos de enredo e de sincronização com o mundo real e as pessoas de verdade, que fazem com que a fantasia super-heróica nacional(ista) fracasse em termos de comover as pessoas, ao passo que as "benditas" das novelas e aqueles pequenos quadros de situações do fantástico são bem sucedidos em chamar a atenção.

O que mata é que neguinho vem lá dos Estados Unidos, lá do Japão ou da Europa, fala sobre um monte de assuntos TOTALMENTE FORA DA REALIDADE DO BRASILEIRO, e acaba chamando bastante a atenção, sendo histórias atrativas, comoventes, o leitor acaba se encantando com aquele universo, aqueles personagens, e começa a torcer por ele.
E um ou outro mais talentoso, ou melhor dizendo, persistente, quer emular aquela história... perdão, aquele UNIVERSO FICCIONAL do jeito dele, reinventado, sob-medida, o FAN-FIC dele. Ele faz uma reconstrução daquele(s) mundo(s) fantástico(s) que tanto o inspirou e inspira, com as ferramentas do intelecto, e sincronizando melhor com seus gostos pessoais.

Isso não deveria ser um problema, porque em última análise isso acontece NO MUNDO TODO, MILHARES DE AUTORES DE QUADRINHOS COMEÇAM DESSE JEITO NO MUNDO TODO!!! Por que só no Brasil isso deveria ser um problema?

O fato é que A ABSOLUTA AUSÊNCIA DE EMPATIA ENTRE AS PRODUÇÃO DE QUADRINHOS NACIONAIS E O INTERESSE DO LEITOR É EPIDÊMICA, É QUE NEM SURTO DE DENGUE, se espalhou por tudo quanto é lugar, só que ao contrário da dengue, que existe conhecimento técnico sobre como combatê-la e como evitar sua propagação (só falta a vontade política em fazê-lo), NINGUÉM SABE AO CERTO COMO FAZER PARA TORNAR SUA HISTÓRIA ATRATIVA AO LEITOR... E AI DO PRIMEIRO FILHODAPUTA QUE SE METER A BESTA DE ENSINAR "VINDE A MIM, EU CONHEÇO O CAMINHO" sem ter o precioso respaldo do EXEMPLO BEM-SUCEDIDO A SER INVEJADO, COPIADO E SEGUIDO (né, “senhores sabe-tudo-que-abundam-pelos-blogs-e-fóruns-de-discussão-sobre-quadrinhos”?).



E quando você vai dar o exemplo a ser seguido, ô papudo do dono do blog?



Quando eu engrenar de vez a retomada da minha capacidade produtiva, ó todos aqueles esperançosos em que finalmente Aoki saia de seu maldito casulo imobilista e volte a fazer estrago na cena nacional... muitos me dão aval e apoio apenas por conhecerem às velharias postadas neste blog, poucos privilegiados tomaram conhecimento de meus planos presentes para meu herói com perspectivas sérias de futuro próspero, e com mais veemência ainda me deram suas bênçãos, suas palavras e intenções de apoio, e votos sinceros de boa sorte.

Só posso, e digo isso sem proselismo ou politicagem nem puxassaquismo, que não sossegarei o facho enquanto não tornar materializada (ainda que restrita à forma de imagens virtuais ocupando bytes em algum provedor de hospedagem internet) este primeiro episódio do robô biruta e latão que avoa pelo espaço sideral, digno de minha própria apreciação enquanto leitor, e igualmente digno de todo um esforço de elaboração mental para torná-lo o melhor quadrinho que posso fazer neste meu momento presente... dá até medo soltar uma declaração desse porte para algo que no fundo no fundo não passa de um hobby que virou uma terapia mental e agora se converteu para um caso de vida ou de morte... da expressão artística do Fernando Aoki indivíduo em seu mais puro grau, acima de perspectivas de publicação, de agradar a público leitor, de funcionar para o mercado, de prestação de contas à família... eu transcendi a tudo isso, e devo viabilizar esta minha criação pelo simples e singelo fato de que não apenas só eu posso fazê-la dessa maneira, como ainda por cima, tornou-se uma questão pessoal realizá-la.

Aos senhores que conhecem o plot que elaborei, só peço uma coisa... encham-me de cobrança... amplifiquem o desassossego que me perturba minhas horas de lazer a cada vez que pego num lápis e rabisco alguma coisa... a cada anotação em bloco de nota ou em arquivo de processador de texto que vier a se somar, a detalhar e a complementar esta história... a cada rascunho meu retomando estudos de anatomia daquele enorme e detalhado livro do senhor Burne Hogarth... a cada vez que eu copiar uma arte a lápis do senhor Alan Davis ou do senhor Pasqual Ferri... a cada contemplada que eu der nos meus próprios desenhos antigos naquele misto de saudosismo, temperado com aquele inevitável pensamento obsessivo "se já cheguei a fazer isso antes posso fazê-lo novamente"! É meu apelo e minha automaldição, serei maldito se morrer sem concretizar o que me propus a fazer, serei maldito se ter deixado aos senhores com tanta água na boca e morrer na praia sem entregar aquilo que prometi.

Minha própria idéia primária ganhou corpo, volume, consistência... tornou-se tudo o que eu sonhara em termos de alicerce para as aventuras de meu próprio super-herói, tão digno de ser lido quanto qualquer outro herói de inspiração anterior ou mesmo de histórias de aventura que acompanho agora. Mesmo que a execução da idéia fique aquém das expectativas, saberei que não terei sido preguiçoso nem cômodo, e que terei dado tudo de mim para viabilizá-la enquanto desenhista, enquanto escritor de diálogos, enquanto diagramador de sequências, enquanto diretor de arte, enquanto ditador supremo da equipe do eu sozinho!

Muito obrigado a todos que me apóiam e a todos que me apoiarão doravante!

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Premissas e elucubrações (1)

Tem algumas premissas básicas no latão aqui que tentei pôr antes aqui no blog mas não conseguia fazer uma síntese melhor organizada, então largo deste jeito mesmo:

1 - Não dá pra negar a influência dos heróis espaciais da Marvel (que eu lia nos oitentões) na concepção de meu personagem, especialmente o Surfista Prateado do John Buscema e o Senhor das Estrelas do Byrne (dá-lhe, oitentões!), e principalmente o ROM, o cavaleiro do espaço. Na época, achei que seria interessante colocar uma inteligência artifical DO BEM no lugar de um cavaleiro de armadura como o Homem de Ferro e o próprio Rom... alguém que busca a humanidade mesmo não tendo origem humana.
Nunca contei o Visão como cem por cento artificial por causa daquele lance das ondas cerebrais do falecido Simon William, e muito menos o Tocha Humana original de 1939, por ter aparência humana demais, e fui influenciado pelos livros do Asimov e o velho seriado do Jornada nas Estrelas: nos livros, as máquinas eram um reflexo da humanidade com seus defeitos e suas virtudes, no seriado, eram criações que acabavam se voltando contra seus criadores.
E nos quadrinhos adultos, na época da Animal, tinha o RanXeroX, um bruto violento e bárbaro dentro de uma estrutura de máquina, mas igualzinho os punks... e eu quis um herói máquina justamente para fugir disto, o quadrinho comercial de herói renegando o quadrinho autoral, justamente para homenagear o primeiro pela oposição!
O fato do visual dele remeter ao vilão Besouro, inimigo do Homem de Ferro, foi realmente inconsciente... estava tentando com meus parcos recursos mentais à época recriar a impressão que tive com aquela cena antológica do Exterminador do Futuro, onde ele emerge sem o disfarce humano após a explosão de um caminhão tanque. E naquela cópia escura dos cinemas dos oitentões, aquele robô ameaçador me parecia um robô preto, daí eu pintar de preto o Alma de Aço, ele tinha que começar uma ameaça para então aparecer como herói.

2 - Como puderam notar, desde aqueles primórdios, adoro ironias e contrastes, e felizmente agora encontro-me dotado de discernimento e ferramental técnico mais apropriado para fazê-los em meu personagem de maneira bacana e decente! O senso de ironia acentua e dá força às ideias principais dos roteiros, realça a mensagem, e diverte o leitor mais exigente e perspicaz.

3 - Eu sempre tive fixação por aquelas antigas revistas preto-e-branco A Espada Selvagem de Conan, por que, mesmo dentro de um personagem que tem uma cronologia narrativa, com evolução de situações, reencontro de personagens do passado e de histórias anteriores, NÃO TINHA A BENDITA DA ARMADILHA DA NOVELA SERIADA em que se tornaram os gibis de super-heróis de agora: eram NORMALMENTE histórias com começo, meio e fim NA PRÓPRIA REVISTA. E defini que, dentro da medida do possível, TODAS AS HISTÓRIAS DO ALMA DE AÇO deveriam ter começo-meio-e-fim no próprio episódio! E evitaria ao máximo possível sagas de mais de cinco episódios para ser resolvida (é, eu mesmo não consegui evitar e elaborei uma história em cinco partes com uma aventura muito legal do latão).
Mais uma vez é a coisa da ironia: eu quero ir contra uma estrutura comercialmente bem-sucedida de gibi de linha, de super-herói, mas que eu acho UMA AFRONTA AO LEITOR ENQUANTO CONSUMIDOR DE ENTRETENIMENTO e ao direito dele comprar POR GOSTAR, NÃO POR SER OBRIGADO A ACOMPANHAR O DESENROLAR DA NOVELA E FICAR SE MARTIRIZANDO QUERENDO SABER O FINAL!!!

4 - Atualmente, na revisão do personagem, estou constatando simbologias presentes nos conceitos e nas histórias muito bacanas, que não tinham ocorrido na época mas que estão claras como cristal:

O Alma de Aço é o ápice da tecnologia humana, tanto em armamento altamente sofisticado quanto pelo fato de ser uma inteligência artifical sagaz e bastante equipada para a sobrevivência e para a ação... só que é uma porra de um bárbaro, só sabe oferecer soluções militares do tipo mais trogodita, do tipo extermínio total do desafeto, mesmo o cérebro artificial dele dizendo que nesta ou naquela situação o negócio mesmo é sentar e negociar...
Porra, o cara é UM BÁRBARO, UM TROGLODITA disfarçado de equipamento de última geração... vai ver que é por isso que tem visual de cavaleiro de armadura medieval, parece um transformer fuscão preto ou um besouro halterofilista (eu só desenhei ele parrudo pra parecer um super-herói... pelo visto, vou manter esse visual bem desengonçado e antiquado justamente para realçar o aspecto de solução ignorante para um problema)

Prefiro mantê-lo, em essência, um herói, aquele que procura fazer o que é o certo e o justo... só que agora estou carregando a mão nas falhas de caráter e no revanchismo deste meu personagem... definitivamente os programadores da personalidade dele tinham sérios problemas emocionais...
Um herói que mete os pés pelas mãos, que acaba ou entrando em dilemas morais sobre o certo e o errado, ou pior, em que ambos os lados de uma situação TEM RAZÃO e estão certos (alguém lembrou de Palestina e Israel?). E quando ele tem que se opor a outros que ESTES SIM SÃO HERÓIS LUTANDO PELO QUE É CERTO e tiveram apenas a infelicidade de topar no caminho dele do lado oposto?

Cara, eu adoro essa dicotomia... esse lance de amoralidade mesmo em busca da moral que tanto tinha nas histórias do Conan, o Bárbaro... e que eu vi aprimorada e atualizada através de um quadrinhista japonês absurdamente talentoso e elaborador, Yukito Kishiro, autor de Gunnm - Hyper Future Vision / Last Order (igualmente conhecido como Battle Angel Alita) e de Acqua World.

É a ironia a serviço de aumentar o interesse do leitor no meu trabalho quadrinhístico e trabalhando em prol de aumentar a diversão de quem ler!

Apresentando o personagem “Alma de Aço”

Começou como uma história “one-shot” (com começo-meio-e-fim no mesmo episódio) de um robô super-herói criado em 1986 para um público juveni...